EMMANUELLE

Museu erótico

Hoje em dia, o nome virou uma piada, como sinônimo de telefilmes eróticos de baixíssima qualidade, tantas foram as vezes em que foi usado nesses títulos. Mas houve um primeiro filme, o legítimo Emmanuelle (Emmanuelle, França, 1974) do qual se esperaria – compreensivelmente, nesses tempos de sexo explícito em filmes não-pornôs – ser pouco mais que uma peça de museu. Baseado em um romance de Emmanuelle Arsan, é datadíssimo, realmente, e ainda muito melhor que todos os seus homônimos somados e multiplicados por eles mesmos.

O motivo é básico: há mesmo uma história sendo contada. Emmanuelle (na pele da holandesa Sylvia Kristel, 22 anos na época) é a esposa a quem o marido liberal incentiva a busca de novas experiências sexuais. Ela, no entanto, não está muito interessada. Mas o filme se passa na Tailândia, fazendo as vezes do lugar exótico onde os retraídos também encontram inspiração. É um clichê e tanto, mas pelo menos a personagem é movida por seus conflitos existenciais. 

Em um ambiente em que as esposas dos imigrantes contabilizam casos como anos adiante os jovens fariam com beijos nas micaretas, Emmanuelle não se mostra disposta a entrar nesse jogo. Só quando encontra as pessoas certas é que começa a sentir a necessidade de, aos poucos, avançar as fronteiras – para ela, tornar-se uma mulher completa. Até que se apaixona por uma arqueóloga lésbica. Com esse andamento, nada mais deslocado que a cena de sexo no avião, a caminho da Ásia, indicando que o sexo extra-casamento não era bem uma novidade para a personagem. 

Grande sucesso de bilheteria na época, o filme vai longe nas cenas de sexo para os padrões da época: há estupro, masturbação e lesbianismo em generosas doses – incluindo uma demonstração de pompoarismo, onde se fuma um cigarro de maneira pouco usual. Levantou muita polêmica e gerou várias continuações – Sylvia Kristel participa de três, mas depois a série perdeu de vez a vergonha e continuou sem ela.  

Fora as imitações – que tenatavam enrolavam o público com subterfúgios, como uma “Emanuelle”, sem um dos “m”, ou uma “Emmannuelle”, com um “n” a mais – e as séries de telefimes. O curioso é que a primeira cópia surgiu antes mesmo que o original. O italiano Io, Emmanuelle (1969) usava o nome da personagem, mas não era baseado no romance de Arsan. Mas foi o Emmanuelle de 1974 que, ao menos, teve a coragem de se assumir como uma produção erótica e encarar a censura sem amenizar suas seqüências – foi, assim, o primeiro filme do gênero a ter um tratamento igual ao dos “não-eróticos”, sendo exibido em cinemas normais.

Emmanuelle. (Emmanuelle, França, 1974). Direção: Just Jaeckin. Elenco: Sylvia Kristel, Alain Cuny, Marika Green, Daniel Sarky, Jeanne Colletin, Christine Boisson. Disponível em DVD pela Universal.

ABERTURAS DE NOVELAS/ A VIAGEM

A segunda versão da novela espírita A Viagem (1994) teve uma abertura que usou o interessante recurso de transformar bucólicas paisagens e cenas etéreas, meio fantasmagóricas, até. Mas não assustam muito quando estão embaladas pela açucarada canção do Roupa Nova - que nem é das piores, embora tenha esse infame "te amo" no final. Um detalhe bonito são os créditos passeando pela abertura - ou seja, fazendo parte artisticamente dela, e não apenas aparecendo sobre. Era incomum na época, assim como o tamanho dos nomes aparecerem num tamanho maior que o normal.

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QUEM SABE MAIS?

Sabem os resultados do quiz até agora?

100% - Killer e Juneldo
90% - Junior, Larissa, Maíra
80% - André, Aline
70% - Magali, Denise
60% - Alana
40% - Audaci Jr.
30% - Sinara, Paula
10% - Bergson

Quem ainda quiser responder, manda bala:

Sobre esta vida de cinéfilo
1) Se estes filmes estivessem passando ao mesmo tempo na TV, qual deles eu assistiria?
Juno
Todo Mundo em Pânico
X-Men - O Filme
Dogville
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OSCAR DE ANIMAÇÃO/ 1933: 'THE MERRY OLD SOUL'

Direção: Walter Lantz, William Nolan. Produção: Walter Lantz.
Indicado em 1933.

Aqui, temos o casamento de um rei no mundo dos contos-de-fadas. O desafortunado monarca - que é a cara do Oliver Hardy - descobre logo que a esposa tem uma infinidade de bebês. As gags partem daí - ótima a cena em que se pensa que o rei está lavando roupa e ele está é dando banho nas crianças, numa verdadeira linha de produção. É a estréia de outro grande nome da animação entre os indicados: Walter Lantz, que anos depois criaria o Pica-Pau.

SEÇÃO DE CARTAS

O que irritará tanto o Paulo Martins? ("Seção de cartas", 19/9)

Walison: "pasar Filme para o computador"? "ET, telefone, minha casa"? ("Kung Fu Panda", 15/7)

Alana, concordo que Manoel Carlos nunca mais fez uma novela do calibre de Por Amor. Mas ainda é melhor ver qualquer coisa dele do que as tranqueiras de Glória Perez ou Aguinaldo Silva. E a sua resposta da última pergunta do quiz está correta. O programa lá diz que está errado, mas contabiliza como certa. Agora, tudo bem errar a outra questão, mas achar que eu odeio o Doutor Marcelo é muito engraçado! ("Abertura de novelas/ Por Amor", 21/9; "Você me conhece?", 24/9)

Junior, velho, as perguntas pessoais fazem parte do jogo. Ao menos na próxima você já não vai estar tão mal, hehe. ("Você me conhece", 24/9)

Tá querendo desistir é, amor? Não é bom guardar pelo menos um misteriozinho? ("Você me conhece?", 24/9)

Ju (e Giselle): se eu queria ter sido O QUÊ??? ("Oscar de animação/ 1933: 'Three Little Pigs'", 1/10)

...Agradecendo também a Nildo Barros pela visita e comentário.

OSCAR DE ANIMAÇÃO/ 1933: 'BUILDING A BUILDING'

Direção: David Hand. Produção: Walt Disney, John Sutherland.
Indicado em 1933.

Segunda indicação do Mickey Mouse, em um ambiente comum nas animações da primeira metade do século 20: o esqueleto de um edifício em construção, um possível reflexo da recuperação da economia americana na saída da grande depressão. Enquanto o camundongo comanda uma escavadeira que rosto e expressões, Minnie aparece como vendedora de lanches para os operários. Bafo é o capataz. O curta segue a linha dos demais do ratinho: uma profusão de gags, uma atrás da outra.

ESTRÉIAS DE SEXTA, 3/10, EM JP

- Busca Implacável: Liam Neeson é um ex-agente da CIA que tem a filha seqüestrada na Europa. E parte para lá, para resgatá-la com as próprias mãos de uma rede de prostituição internacional. Parece uma coisa meio Charles Bronson, ou meio Wesley Snipes, mas a produção é francesa (de Luc Besson). A presença de Neeson - um ator, no mínimo, de bom gosto - nos dá esperança de que haja algo mais aí. No Box e no Tambiá.

- Mamma Mia! - O Filme: Depois de liderar as bilheterias nacionais por dois finais de semana seguidos e arrecadar mas de 460 milhões de dólares no mundo, finalmente estréia aqui o musical estrelado por Meryl Streep e criado a partir das canções do Abba. A história é sobre uma jovem noiva que quer conhecer o pai e descobre que há três possibilidades - e os convida, sem o conhecimento da mãe, que entra em desespero. O musical dos palcos, que estreou no West End londrino em 1999 e chegou à Broadway em 2001, já foi visto por mais 30 milhões de pessoas. Só no Box.

- Super-Heróis - A Liga da Injustiça: O título nacional já é cretino. Dá a entender que é uma continuação de Super-Heróis - O Filme, mas, apesar da dupla de - por assim dizer - diretores-roteiristas ser a mesma, não é. Aquele era Super-Hero Movie, este é Disaster Movie - como já apareceram os Scary Movie, Not Another Teen Movie, etc. Tanto faz, também, o esquema é o mesmo: um resumão do que o cinema e a cultura pop produziram no último ano, em forma de paródia das principais cenas. Só para fãs de Todo Mundo em Pânico e similares. Só no Box. 

- Só em Campina Grande, acontece a estréia de Missão Babilônia: O filme se passa em futuro assolado por guerras, no qual Vin Diesel é um mercenário que deve levar uma jovem da Rússia para o Canadá, mas descobre que ela teve uma alteração genética e carrega um vírus que pode destruir a humanidade. O próprio ator e o diretor francês Mathieu Kassovitz reclamaram muito que o estúdio passou a faca e estragaram a coisa toda. Considerando que o filme já é com Vin Diesel... Só no Iguatemi.

- E Os Mosconautas no Mundo da Lua entra de novo em pré-estréia (confira o trailer em post anterior).

CEGUEIRA GERAL
Essa é boa. A Federação Nacional dos Cegos, nos Estados Unidos, está planejando realizar um protesto contra a estréia de Ensaio sobre a Cegueira por lá. É tão imbecil quanto a revolta das lésbicas em 1992, pelo fato de Sharon Stone interpretar uma assassina que também é bissexual em Instinto Selvagem...
A MONTANHA DOS SETE ABUTRES

A serpente na gaveta

Se 50 serpentes estão soltas em uma pequena cidade, causando o pânico à população, e 49 são encontradas, onde está a última? Ela pode estar em qualquer lugar, pronta para dar o bote, mas ninguém consegue encontrá-la. Onde ela estará? “Na minha gaveta”, diz o jornalista Charles Tatum (Kirk Douglas), ensinando o jovem fotógrafo que o acompanha como esticar o interesse por uma reportagem. E Billy Wilder dá uma lição do que é jornalismo à América. Ou, ao menos, do que é um certo jornalismo, escancarado sem dó nem piedade no clássico A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole/ The Big Carnival, Estados Unidos, 1951).

Não que o jornalismo gozasse de reputação intocável no cinema. Desde a peça The Front Page, de Ben Hecht, que, até ali, havia gerado dois filmes (A Última Hora, 1931; e Jejum de Amor, 1940), já se sabia que um jornalista decidido a fisgar um furo de reportagem podia não ser flor que se cheirasse. Para não deixar dúvidas, o próprio Wilder viria a fazer uma terceira adaptação da peça, em 1974: A Primeira Página. The Front Page era centrado em repórteres mais interessados em suas matérias do que no fato que estavam cobrindo, mas não mostrava a manipulação do público como A Montanha dos Sete Abutres viria a fazer – e muito menos com o cinismo e a virulência de Wilder.

A história começa com Tatum procurando um emprego num jornaleco de Albuquerque – ele foi parar lá depois de ser despedido de vários grandes jornais, por variadas razões. É um ambiente estranho para ele: na parede, bordado, um quadro com os dizeres “Diga a verdade”. É para ele que Tatum está olhando quando diz ao editor Boot (Porter Hall) que já mentiu para homens que usavam cinto e homens que usavam suspensórios – mas nunca foi idiota para mentir para um que usasse cintos e suspensórios ao mesmo tempo. E o convence parodiando uma máxima das redações: “Eu posso cuidar de grandes notícias ou pequenas notícias. E se não houver notícias, eu saio e mordo um cachorro”.

Aqui, como sempre, Wilder é diretor e co-roteirista (com Walter Newman e Lesser Samuels) e – como se vê – seu talento para diálogos antológicos já está afiado desde o começo do filme. Virão outros quando Tatum e o fotógrafo Herbie (Robert Arthur) saem para uma reportagem corriqueira e dão de cara com outra: um homem, Leo Minosa (Richard Benedict), que está soterrado em ruínas indígenas na Montanha dos Sete Abutres. O jornalista vê aí sua chance de ter uma grande matéria – aquela que o levará de volta à primeira divisão, a um grande jornal nova-iorquino.

Ele começa a armar uma teia para extrair o máximo que pode desse drama humano. Manipula o xerife para que o salvamento seja feito pelo meio mais difícil e, assim, ter mais tempo para explorar a história – e o xerife, para bancar o herói e garantir a reeleição. Outro exercício de sensacionalismo é a tristeza da esposa Lorraine (Jan Sterling), que, na verdade, parece mais interessada no jornalista que no marido preso embaixo da montanha. Quem é pior em A Montanha dos Sete Abutres? Difícil dizer, já que, como escreveu Ruy Castro, Billy Wilder não faz o melhor dos juízos do ser humano.

Se petardos são disparados para todo lado, alguns deles têm o povo americano bem na mira. Uma família de caipiras, passando por perto, resolve dar uma olhada rápida no que está acontecendo, antes de seguir viagem. Logo, estão com acampamento montado. Não demora, diante das centenas de pessoas que transformaram o salvamento no grande parque de diversões de um dos títulos originais, já estão se gabando para a imprensa de terem sidos os primeiros a chegar. O recado foi dado, porque nem a imprensa e nem o público gostaram de como Billy Wilder os via. Resultado: o filme naufragou na bilheteria. A Paramount tentou reverter a situação mudando o título do filme – de Ace in the Hole para The Big Carnival –, mas não adiantou.

Se a carapuça serviu, para ambos os lados, não foi à toa. O diretor sabia do que estava falando: foi jornalista até 1926, ainda na sua Áustria natal. Não só isso, mas a história de A Montanha dos Sete Abutres é baseada em um caso real, a de Floyd Collins, que ficou soterrado por 18 dias, em 1925, sendo material para uma festa da imprensa e do público. A versão de A Montanha dos Sete Abutres explora o pior de quase todos os personagens (“Eu não rezo. Desfia as minhas meias”, diz Lorraine) – até que o próprio Tatum é obrigado a ficar frente a frente com sua ética, e a partir daí começa a ser construído mais um dos finais inesquecíveis do velho Billy.

Mas até lá, predominam a arrogância, na interpretação de um Kirk Douglas que domina o filme todo. Como na cena em que Tatum, controlando as informações, ouve o pedido dos outros jornalistas que passam a pão e água: “Estamos no mesmo barco”. “Eu estou no barco. Vocês estão na água”.

A Montanha dos Sete Abutres. (Ace in the Hole/ The Big Carnival). Estados Unidos, 1951. Direção: Billy Wilder. Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Robert Arthur, Porter Hall, Frank Cady, Richard Benedict. Ainda inédito em DVD no Brasil.

OSCAR DE ANIMAÇÃO/ 1933: 'THREE LITTLE PIGS'

Direção: Burt Gillett. Produção: Walt Disney.
Vencedor do Oscar em 1933.

Se a adaptação de contos-de-fadas são uma marca da Disney, estes foram os primeiros tempos, na série Silly Symphony. O Technicolor fez de novo a diferença na versão mais conhecida dos porquinhos que constróem suas casas e o Lobo Mau que tenta derrubá-las. O curta Os Três Porquinhos imortalizou a canção "Who's afraid of the Big Bad Wolf?" ("Quem tem medo do Lobo Mau?") - quem não conhece? O desenho é ainda melhor quando se observa os detalhes: na casa do Prático, até o piano é de tijolos e o quadro na parede, do pai dos trigêmeos, mostra uma linguiça.

Oscars de animação anteriores: Flowers and Trees; It's Got Me Again; Mickey's Orphans (todos na mesma página).

OS DESAFINADOS

½

Filme-saudade

Os Desafinados (Brasil, 2008) é um filme de muitas saudades. O diretor Walter Lima Jr., cujo primeiro longa foi Menino de Engenho (1965), faz um passeio pelo começo dos anos 1960, passando não só pelo começo do sucesso internacional da bossa nova, mas lembra carinhosamente do cinema novo, da esperança no futuro que a construção de Brasília representava e como tudo isso teve o tapete puxado pelo golpe militar de 1964.

O filme começa bem, com o anúncio da morte de uma cantora brasileira na Europa trazendo recordações a um veterano cineasta (Sélton Mello, quando jovem). Revendo filmes caseiros antigos, lembra de seus amigos músicos, Os Desafinados (Rodrigo Santoro, Ângelo Paes Leme, Jair Oliveira e André Moraes), a partir do momento em que tentam ser incluídos no elenco do famoso show da Bossa Nova no Carnegie Hall. Não conseguem, mas resolvem ir para Nova York por conta própria e lá, conhecem a cantora Glória (Cláudia Abreu). Ela e Joaquim (Santoro), que é casado, se apaixonam.

Ao lado da saudade de uma época pré-regime militar e de um cinema engajado e feito com muita paixão, Os Desafinados coloca a dos brasileiros expatriados, com os músicos e sua estadia em Nova York. Na volta ao Brasil, o filme começa a se arrastar além do necessário, indo anos 1970 adentro e mostrando problemas com as ditaduras brasileira e argentina e o de músicos que continuam sendo enganados no meio artístico quando a questão é dinheiro.

No final, quando um personagem-surpresa surge em cena, o filme de Lima Jr. já se entregou aos mais deslavados clichês. É um escorregão e tanto, mas ainda bem que Os Desafinados não chega a cair por completo. É agradável de se ver, tem seu charme e ainda revela Jair Oliveira atuando com bastante naturalidade.

Os Desafinados. Brasil, 2008. Direção: Walter Lima Jr. Elenco: Rodrigo Santoro, Cláudia Abreu, Sélton Mello, Ângelo Paes Leme, Jair de Oliveira, André Moraes, Alessandra Negrini, Michel Bercovitch, Vanessa Gerbelli. Atualmente em cartaz em João Pessoa no Box Manaíra.

ABERTURAS DE NOVELAS/ TI-TI-TI

Um clássico. A abertura de Ti-ti-ti (1985-1986) se inspirou na divertida trama central, que era a rivalidade entre dois amigos de infância no mundo da alta costura (Jacques LeClair e Victor Valentin, lembram?), para criar esta antológica seqüência de brigas entre tesouras, agulhas, linhas, fitas métricas, lápis - tudo em uma complicada animação realizada com os próprios objetos. Brilhante. No tema musical: o Metrô no auge, cantando a ótima música da Rita Lee que acabou batizando também a novela.

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