SEÇÃO DE CARTAS

Vitória, filmes sobre pessoas presas em algum lugar enquanto há um grande e misterioso perigo lá fora é um plot razoavelmente comum no cinema de horror. E há aquele A Bruma Assassina, sobre uma névoa que sai matando gente (embora não seja exatamente isso o que acontece em O Nevoeiro). Mesmo assim, o filme do Darabont supera qualquer dessas comparações. ("O Nevoeiro", 13/9)

Linaldo, pô, assim você me deixa encabulado. ("Ensaio sobre a Cegueira", 15/9)

Junior, saí mudo mesmo! Primeiro, de impressionado. E segundo, pela pressa: tínhamos que pegar o ônibus! Olha, eu já tinha, por mim mesmo, me lembrado do Louca Obsessão, mas seu comentário me fez pensar que tinha escrito aquilo na crítica e que eu tinha que me retificar, hehe. Também nunca vi Eclipse Mortal (e por isso não o citei naquela lista), mas tenho vontade. Pode ser uma pro Billy Dee Williams, hein? E sobre o blog ser melhor que o primeiro, bom, a gente vai tentando melhorar, né? Valeu! ("O Nevoeiro", 13/9; "Seja legal! Todo mundo ganha com isso", 15/9; "Ensaio sobre a Cegueira", 15/9; "King no cinema", 17/9)

Ricardo, também lembrei de O Anjo Exterminador quando vi o Ensaio sobre a Cegueira. Mas, ao contrário de você, mesmo achando o filme do Buñuel antológico, não acho que ele esgotou o tema dos confinados a ponto de nenhum outro filme se arriscar a lidar com o tema. ("Ensaio sobre a Cegueira", 15/9)

Angel, mais uma vez, obrigado por seu elogio - é dos que mais devem ser levados em conta. E mantenha o Escafandro sempre em dia, viu? ("Seja legal! Todo mundo ganha com isso", 15/9)

Ora, caro Paulo Martins, você está lendo, não está? Até formou seu conceito sobre o conteúdo todo. E agradeço o seu conselho, mas nunca deixo de estudar - além de enriquecedor, é muito agradável. Mas o devolvo a você: é bom estudar mais cinema. ("Dose dupla nos cinemas [3]", 17/9)

O DESTINO DO MAG

Leiam aqui a minha matéria sobre as salas do MAG Shopping, que fecharam hoje.

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A partir de hoje, as salas de cinema do MAG Shopping estão fechadas. A Sercla, companhia exibidora com sede em Minas Gerais, que gerenciava as salas desde sua abertura, em 2001, agora programa apenas os filmes do Tambiá Shopping, em João Pessoa, e do Iguatemi, em Campina. Seriam cinco salas de cinema a menos na cidade, não fosse a notícia que ameniza o golpe: outra exibidora deve assumir o complexo, que vai passar por uma profunda reforma, de acordo com Manoel Alves Gaudêncio, proprietário do MAG Shopping.

Gaudêncio afirma que o anúncio da nova exibidora será provavelmente dia 10 e que não quer entrar em detalhes antes que o contrato com a Sercla chegue ao final, no dia 30. “Serão cinco salas totalmente redesenhadas, com novos projetores e som digital em todas as salas”, me disse ao telefone.

O projeto já está em andamento, criado por uma arquiteta carioca que, mais uma vez, Gaudêncio prefere não dizer ainda quem é - mas garante que é especializada em cinemas. “Teremos provavelmente duas salas para filmes alternativos, que será uma opção para o público adulto”, conta ele. O hall do cinema também passará por mudanças e se transformará em um café.

As salas do MAG Shopping foram o primeiro multiplex de João Pessoa e entraram em decadência após a instalação das oito salas no Manaíra Shopping. Mesmo assim, alguns dos melhores filmes exibidos na cidade nos últimos anos só passaram ali (veja abaixo).

A Sercla, por sua vez, trabalha com ampliações. Promete finalmente inaugurar as duas novas salas do Tambiá - que passará a ter seis - no mês que vem e planeja uma nova sala para o Iguatemi - que chega às cinco. Se o final de todo esse processo se confirmar, João Pessoa, que dormiu ontem com 17 salas e acordou com 12, pode se ver em breve com 19 salas. Se elas se refletirem em diversidade e qualidade, então, ótimo.

Só passou no MAG


Boa Noite e Boa Sorte
: O excelente drama político dirigido por George Clooney, indicado ao Oscar, só chegou a João Pessoa pelo multiplex do MAG Shopping.


Um Beijo Roubado
: A comentada estréia do chinês Wong Kar-Wai nos filmes falados em inglês foi um dos últimos grandes filmes a passar no complexo.


Cartas de Iwo Jima
: A obra-prima de Clint Eastwood que mostrou o lado japonês da batalha de Iwo Jima é mais um indicado ao Oscar que não teve vez em outros cinemas.


Paris,Te Amo
: O encantador mosaico de curtíssimas-metragens declarando amor a Paris foi um surpreendente sucesso de público - e, aqui, só passou nas salas do MAG.


4 meses, 3 semanas, 2 dias
: Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o brilhante filme romeno teve grande repercussão em sua exibição no Brasil.


A Pessoa É para o que Nasce
: O documentário sobre as ‘ceguinhas de Campina Grande’ foi um dos filmes nacionais com pré-estréias nas salas do MAG Shopping.


O Labirinto do Fauno
: Mais um filme em língua não inglesa exibido pelas salas do MAG - no caso, a surpreendente fantasia política do mexicano Guillermo del Toro.


O Grande Truque
: De final muito comentado, o filme de Christopher Nolan (de Batman, o Cavaleiro das Trevas) abordou o mundo da mágica de palco.


Cinema, Aspirinas e Urubus
: O cinema nordestino marcou presença no MAG. Também foram exibidos O Céu de Suely, Baixio das Bestas e Árido Movie, entre outros.


A Espiã
: A ressurreição de Paul Verhoeven como cineasta, em sua Holanda natal, só pôde ser conferida pelos freqüentadores das salas do multiplex do MAG Shopping.

ESTRÉIAS DE SEXTA, 19/9, EM JP

- A Caçada: Richard Gere é um jornalista que lidera uma equipe que está na Bósnia tentando encontrar Radovan Karadzic, o ex-líder sérvio da Bósnia, perseguido por genocídio pelo Tribunal Penal Internacional de Haia. Só que eles são confundidos com agentes da CIA e eles é que passam a ser perseguidos. Mais uma investida de Gere em um cinema com algum engajamento. No elenco, também Terrence Howard e a alemã Diane Kruger (de A Lenda do Tesouro Perdido). No Tambiá e no Box (neste, curiosamente, só como pré-estréia).

- A Casa da Mãe Joana: Três bons vivants de meia-idade (José Wilker, Antônio Pedro e Paulo Betti) são passado para trás por um amigo (Pedro Cardoso) em um golpe. Resultado: estão na iminência de perder seu apartamento e precisam conseguir dinheiro para pagar as dívidas - sem trabalhar duro, lógico. A direção é de Hugo Carvana, sempre disposto a um cinema alto-astral, com um elenco que ainda tem Juliana Paes, Malu Mader, Arlete Salles, Beth Goulart, Cláudio Marzo, Agildo Ribeiro e Fernanda de Freitas. Há um quê de chanchada da Atlântida na proposta do filme (e na carreira de Carvana como diretor) e as cenas de Paulo Betti como objeto sexual prometem. Só no Box.

- Os Desafinados: Rodrigo Santoro, Ângelo Paes Leme, Jair de Oliveira e André Moraes interpretam o quarteto de músicos que, no começo dos anos 1960, resolve tentar a sorte em Nova York - bem na aurora da conquista internacional da Bossa Nova. Lá, conhecem a cantora vivida por Cláudia Abreu, que será o pivô de um triângulo amoroso - a outra ponta é a esposa traída vivida por Alessandra Negrini. Sélton Mello é um cineasta amigo da turma. A direção é de Walter Lima Jr., de Menino de Engenho (1965) e A Ostra e o Vento (1997), que mescla um punhado de histórias verdadeiras e adaptadas nesse tipo de The Wonders brasileiro e bossanovista. Só no Box.

- Nem por Cima do Meu Cadáver: Estrelado por Eva Longoria (de Desperate Housewives), aqui ela é o fantasma que volta para atormentar a vida da nova mulher de seu ex - uma profissional a quem ele havia procurado para contactar a noiva morta. Entre os coadjuvantes, figurinhas de comédias de gosto duvidoso, como Jason Biggs (de American Pie) e Lake Bell (a amiga mal encarada de Jogo de Amor em Las Vegas). Mas aqui, pelo trailer, a coisa não parece tão ruim. Só no Box.

- Trovão Tropical: A comédia dirigida e estrelada por Ben Stiller que acabou gerando até protestos pelo tratamento politicamente incorreto dado aos portadores de deficiência. Besteiras à parte, a comédia mostra três atores - Stiller, Robert Downey Jr. e Jack Black - tentando levar suas carreira a sério em um épico sobre a Guerra do Vietnã, incluindo filmagens nos locais reais. Só que eles acabam em apuros reais e nem percebem. Uma sátira a Hollywood que liderou as bilheterias por lá em quatro semanas seguidas - mas aqui, só estreou em nono lugar. Só no Box.

- Zohan, o Agente Bom de Corte: Adam Sandler é o agente israelense que forja a própria morte e vai para Nova York viver seu sonho: ser cabelereiro. Mas, claro, o passado voltará a assombrá-lo. Veículo para Sandler e quem já viu alguma comédia do ator, já sabe o que esperar (embora algumas recentes tenham tido surpreendentes toques dramáticos - não parece ser o caso aqui). No Box e no Tambiá. 

DOSE DUPLA NOS CINEMAS (3)

Quem está em cartaz com mais de um filme ao mesmo tempo em João Pessoa?

 
Alice Braga, em Ensaio sobre a Cegueira e Cinturão Vermelho

 
Morgan Freeman, em Batman, o Cavaleiro das Trevas e O Procurado

Além de quem já estava:

 
Jet Li, em A Múmia - Tumba do Imperador Dragão e O Reino Proibido

 
Selma Blair, em Hellboy II - O Exército Dourado e Mais do que Você Imagina

KING NO CINEMA

Por sorte, não escrevi isso na minha crítica de O Nevoeiro, mas andei falando por aí e tenho que corrigir: disse que Frank Darabont dirigiu três dos cinco melhores filmes baseados em Stephen King. Seriam Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre e, agora, O Nevoeiro, somados a Carrie, a Estranha (de Brian de Palma) e O Iluminado (de Stanley Kubrick). Claro que não: À Espera de um Milagre não é melhor que os filmes do Rob Reiner - Conta Comigo e, principalmente, o antológico Louca Obsessão! E ainda tem O Aprendiz, do Bryan Singer, que eu ainda não vi. E, também, Na Hora do Zona Morta, de David Cronenberg. Já dá pra fazer um top 10.

ÚLTIMA PARADA: OSCAR?

Já está escolhido o representante brasileiro que vai tentar uma vaga entre os cinco indicados ao Oscar de melhor filme de língua não inglesa: Última Parada 174, de Bruno Barreto - curiosamente, um filme que ainda nem está em cartaz comercialmente (a estréia é só dia 24 de outubro). O Ministério da Cultura anunciou agora há pouco a decisão, que saiu de uma comissão formada por Antonio Alfredo Torres Bandeira, Cleber Eduardo Miranda dos Santos, Silvia Maria Sachs Rabello, Maria Dora Genis Mourão, Giba Assis Brasil e Paulo Sérgio Almeida, com o secretário do Audiovisual, Silvio Da-Rin, presidindo.

O filme conta a história real de Sandro do Nascimento, que escapou da chacina da Candelária, quando criança, e cuja vida culminou no seqüestro de um ônibus no Jardim Botânico - assistido ao vivo por milhões de brasileiros que acompanharam tudo pelas TVs naquele final de tarde, em 2000. A história já foi contada no impressionante documentário Ônibus 174 (2002), de José Padilha.

A lista de inscritos ainda tinha:

- A Casa de Alice, de Chico Teixera; Chega de Saudade, de Laís Bodanski; Estômago, de Marcos Jorge; Meu Nome Não É Johnny, de Mauro Lima; O Passado, de Hector Babenco (co-produção com a Argentina e falado em espanhol); e O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Riccelli,
todos esses já exibidos em João Pessoa;

Era Uma Vez, de Breno Silveira, ainda em cartaz; 

- e A Via Látea, de Lina Chamie; Mutum, de Sandra Kogut; Nossa Vida Não Cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro; Olho de Boi, de Hermano Penna; Onde Andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado; e Os Desafinados, de Walter Lima Júnior; ainda inéditos por aqui.

Para quem se perguntou por Tropa de Elite (quando os concorrentes foram anunciados, o Yahoo Brasil fez bobagem e colocou a foto de Tropa na capa do portal, sem que ele estivesse na lista), o filme de José Padilha concorreu no ano passado - e o filme escolhido foi O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, que passou por duas peneiras e ficou entre os nove semifinalistas. Como estreou nos Estados Unidos este ano, Tropa vai ver se descola alguma indicação nas demais categorias, brigando com os filmes americanos.

O caso curioso é o fato de que Linha de Passe, de Walter Salles e Daniella Thomas, nem inscrito foi. O Blog do Bonequinho traz a explicação numa carta de Walter Salles ao jornal O Globo: nem ele nem Daniela poderiam se dedicar à campanha como necessário.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

½

Abrindo os olhos

Muito já se falou sobre Ensaio sobre a Cegueira (Blindness/ Ensaio sobre a Cegueira, Canadá/ Brasil/ Japão, 2008) e parece que tudo é uma questão - com trocadilho e tudo - de como cada um vê o filme. Seco e até brutal, o filme de Fernando Meirelles não é fácil de ser assistido. É desconfortável e quer mesmo provocar esse desconforto - a maneira em que apostou para forçar a identificação do público com os personagens sem apelar para o melodrama que destoaria do livro de José Saramago. O filme é reverente ao livro, mas demonstra inequívoca personalidade própria e coragem.

Em uma nova parceria antológica com o diretor de fotografia César Charlone (um dos diretores de O Banheiro do Papa, 2007, e que fez a fotografia de Cidade de Deus, 2002, e O Jardineiro Fiel, 2005), Meirelles ousa reproduzir a cegueira branca para o espectador, através de um surpreendente "nada" invadindo a tela ou dos personagens surgindo de dentro dele, e várias cenas desfocadas propositalmente. E consegue: a sensação de ver pouco ou não ver nada torna a experiência de Ensaio sobre a Cegueira ainda mais angustiante.

Não é para menos. Se a saga de um grupo cada vez maior de pessoas confinado em um antigo sanatório diante do terror da sociedade frente à inexplicável epidemia - e, na prática, abandonados à própria sorte - já é cruel, o filme vai além disso: leva o espectador a se identificar também com a esposa do oftalmologista (Julianne Moore), a única que, também inexplicavelmente, ainda consegue enxergar, mas esconde isso para poder acompanhar o marido (Mark Ruffalo) em seu confinamento com dezenas de outros atingidos pela cegueira.

Por conseguir ver, ela é a única testemunha ocular da degradação até onde o ser humano pode chegar, quando seus instintos básicos começam a tomar conta. Nesse momento, o horror vai aumentando a níveis inimagináveis, envolvendo até o sacrifício de mulheres que se entregam a um estupro coletivo por comida. O sentido apocalíptico do filme é ressaltado quando o filme sai do sanatório e Ensaio sobre a Cegueira alcança o brilhantismo quando provoca nova sensação de cegueira no espectador, ao colocá-lo no escuro por muitos e terríveis segundos. São os momentos particulares que somam para construir a metáfora do filme sobre a cegueira da humanidade sobre si mesma: o sacrifício da mulher exigido desde o princípio dos tempos, a união de raças e povos como única saída viável.

Meirelles pega leve nas cenas mais fortes, até forçado pela reação adversa de mulheres durante as sessões-teste. É difícil imaginar até onde iria se reproduzisse toda a sujeira e violência do livro. O filme evita muito bem choques gratuitos e investe no drama psicológico e na tensão como uma constante, um pesadelo que parece sem fim sustentado por um excelente elenco. Com mínimos e surpreendentes toques de humor, Ensaio sobre a Cegueira nos leva a um final reflexivo, que nos convida a abrir os olhos e enxergar melhor o mundo.

Ensaio sobre a Cegueira. (Blindness/ Ensaio sobre a Cegueira). Canadá/ Brasil/ Japão, 2008. Direção: Fernando Meirelles. Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Gael García Bernal, Danny Glover, Yoshino Kimura, Yusuke Iseya, Sandra Oh. Atualmente em cartaz em João Pessoa no Box Manaíra.

SEJA LEGAL! TODO MUNDO GANHA COM ISSO
UOL

E não é que o Minha Vida de Cinéfilo 2 está entre os blogs legais do Uol? Obrigado a quem citou este cantinho!

Continuamos trabalhando para melhor servi-lo!

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