ABERTURA DE NOVELAS/ VEREDA TROPICAL

A abertura de Vereda Tropical (1984/ 85) traz o traço inconfundível de Miguel Paiva sobre música cantada por Ney Matogrosso, na versão ultralatino (parece que vai emendar 'Bandido corazón' logo na seqüência). Muita cor, frutas voando e uma curiosidade: repare, bem no finalzinho, aparição do nome "João Pessoa". É aqui que a novela começava, com Lucélia Santos refugiada com o filho (Jonas Torres, que logo depois seria o Bacana da Armação) do ex-sogro milionário e malvado. Outra surpresa é que essa é uma novela do Carlos Lombardi que presta (deve ser pela supervisão de texto de Sílvio de Abreu, sempre achei que esta novela fosse dele).
½

O NEVOEIRO

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Horror interno

Existe uma máxima sobre os filmes de horror que parece ter sido desaprendida na era do superefeitos visuais: a de que o que mais aterroriza a humanidade é aquilo que ela não conhece. Pode ser a escuridão ou uma névoa estranha como a que cai sobre a pequena cidade de O Nevoeiro (The Mist, Estados Unidos, 2007), de Frank Darabont, mais uma vez adaptando com excelência uma história de Stephen King. Na maior parte do tempo, não sabemos (ou temos apenas pequenas pistas sobre) de onde ela vem, por que ela está ali ou o que há lá dentro. Mas isso também não importa, porque Darabont usa o sobrenatural para focar o microcosmo que se forma no interior de um supermercado.

A névoa chega sem aviso, no dia seguinte à uma grande tempestade, e as pessoas no supermercado são alarmadas por um homem que chega sangrando e contando que algo levou outro cidadão. Basta mais uma prova para que todos se tranquem lá dentro, mas testemunhem o sinistro "nada" que toma conta das ruas, pela vidraça que vai de um lado a outro da frente da loja. Isolados, eles discutem se podem fazer alguma coisa e qual seria a razão para o fenômeno. Há desde gente que insiste em negar que algo fora do comum está acontecendo até a fanática religiosa que prega ser o fim do mundo - esta, interpretada com brilhantismo pela grande Marcia Gay Harden.

Não espere um pastiche como Pânico e similares. Aqui, é a expectativa que cria o suspense, muito mais do que grandes sustos. E, se o horror lá fora pode ser grande, também é considerável aquele que o ser humano consegue produzir dentro do supermercado, quando a insanidade e o desespero vão ganhando mais e mais adeptos. Darabont procura não chocar gratuitamente ou promover um festival de sangue e vísceras para consumo adolescente. Ao contrário, extrai o máximo de tensão de cada cena - muitas vezes, através de pura sugestão e meias-palavras. O choque, quando há, é sempre carregado de dramaticidade. Ele quase não usa trilha sonora, evitando a tentação de sublinhar o clima de cada seqüência.

Acreditar nesses personagens - os fregueses e funcionários do supermercado - é também mérito de um elenco que consegue convencer, mesmo quando o filme exige certos estereótipos para reforçar seu micrcosmo. É o caso de Marcia Gay Harden, mas também o do protagonista Thomas Jane (é difícil até acreditar que ele estrelou O Justiceiro), de Andre Braugher, Laurie Holden, Toby Jones e vários outros. Eles compartilham conosco o drama de seus personagens e nos acompanham até o final, impactante e surpreendente como poucas vezes se viu. É um momento para ser material para muita conversa após o filme.

O Nevoeiro. (The Mist, Estados Unidos, 2007). Direção: Frank Darabont. Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Andre Braugher, Toby Jones, William Sadler, Jeffrey DeMunn, Frances Sternhagen, Alexa Davalos. Atualmente em cartaz em João Pessoa no Box Manaíra.

MENINAS ESPECIAIS

O ótimo filme Ghost World - Aprendendo a Viver (2000) é baseado em uma história em quadrinhos de Daniel Clowes (e encontrável em qualquer Americanas da vida por módicos R$ 10). O que eu não sabia é que a HQ nunca foi lançada no Brasil. A informação veio do Gibizada, que também mostra essa maneira ótima que a Fantagraphic encontrou para divulgar a caprichadíssima edição especial da HQ, cuja capa é essa aí de baixo.

ENTREVISTA COM FERNANDO MEIRELLES


Fernando Meirelles e Julianne Moore, nas filmagens de Ensaio sobre a Cegueira

Hoje, no JP e no Paraiba1 tem entrevista minha com Fernando Meirelles, feita por e-mail esta semana. Ele respondeu durante o Festival de Toronto, onde o filme foi exibido. Lá, está em forma de texto corrido, mas aqui vai a entrevista completa em forma de perguntas e respostas:

Você me disse em uma entrevista anterior que achava o filme forte, mas não insuportável. E isso, após aquelas exibições-teste em que mulheres saíram no meio da sessão e tal, o que parece ter feito você achar que o filme estava pesado demais.
Quando 50 mulheres saem do cinema na mesma cena, é impossível não cair alguma ficha.

Após a divisão dos críticos, que se seguiu à exibição em Cannes, você mudou alguma coisa?
Remixei e melhorei a marcação de luz. Também tirei algumas narrações do Danny Glover e coloquei algumas cenas no início que havia cortado. O filme não mudou muito. Estou em Toronto e o filme foi extremamente bem recebido aqui no Canadá. Que diferença daquele campo de batalha francês.

Como foi para você lidar com as críticas negativas, depois que Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel foram tão elogiados?
Ensaio Sobre a Cegueira é um projeto perfeito para a controversia, e eu já sabia disso, mas mesmo assim sempre chateia não ser compreendido. De qualquer maneira parece que a onda mudou completamente. Se você pegar Veja, Bravo, Época, Set e quase a totalidade da crítica brasileira e canadense a coisa anda muito bem graças a Deus. 

Com um número de críticos torcendo o nariz, a reação emocionada do Saramago naquela exibição te deu uma sensação de "então, não estou tão errado"? De que o caminho para a adaptação é esse mesmo que você tinha escolhido?
Sem dúvida e li ontem uma entrevista com o saramago onde o jornalista perguntou se a adaptação era satisfatória e ele respondeu: " Mais que satisfatória, é brilhante!"  Depois desta vai ser difícil algum crítico me aborrecer por mais duro que seja com o filme. Não é só o Lula que anda blindado!

Como é para você estar nesse "jogo de gente grande"? Quer dizer, lidando com um filme de vários milhões de dólares, astros internacionais e uma obrigação, talvez, de corresponder na bilheteria? Você se sente obrigado a isso? Pensa nisso quando está dirigindo, e na montagem? Sente essa responsabilidade quando filma no Brasil (pergunto isso porque sempre tem aquela história de que o filme nacional já surge pago por causa do dinheiro público e isenções fiscais dos investidores)?
Na verdade não penso na bilheteria em si, até porque eu dificilmente me beneficio dela, mas sem dúvida quero que o filme seja o mais visto possível. Não faço filmes para mim mas para um tipo de audiência que projeto na minha cabeça. Gente sensível e inteligente, mas não chata e acadêmica no mal sentido.

Quais são suas expectativas com relação ao filme, neste momento?
O que eu tinha que fazer já está feito. Torço para que ele chegue a uns 300 mil espectadores no Brasil. É ousado da minha parte mas tenho fé.

Já li também notícias a respeito da sua vontade de adaptar Trabalhos de Amor Perdidos, o livro do Jorge Furtado. A quantas anda esse projeto? Ele deve fazer o roteiro para você dirigir? Vocês já trabalharam juntos alguma vez?
Ja trabalhei com o Jorge muitas vezes em projetos para TV. Sou um grande fã. Pensamos neste filme mas não vou mexer em nada antes de março do ano que vem. Férias é meu próximo projeto depois de acabar a minisérie que estou rodando.

E como será a série para a TV sobre Shakespeare? É a O2 que produz?
É um comédia dramática sobre uma companhia de teatro que monta peças de Shakespeare mas o tema é o universo dos atores e não das peças.  Estou dirigindo com mais 4 amigos: Gisele Barroco, Toniko Melo, Fabrizia Pinto e Rodrigo Meirelles. Vai ao ar na Globo em fevereiro.

ESTREÍAS DE SEXTA, 12/9, EM JP

- Cinturão Vermelho: O diretor-roteirista David Mamet (ele escreveu nada menos que Os Intocáveis e dirigiu As Coisas Mudam e O Assalto) conta uma história que se passa no mundo das artes marciais. Mas é um drama: um professor de jiu-jitsu que não quer competir e nem participar dos esquemas que estão sempre rondando os lutadores. Mas a pressão de sua ambiciosa esposa é um problema. A esposa é interpretada por Alice Braga e Rodrigo Santoro também está no elenco. Só no MAG.

- Ensaio sobre a Cegueira: A aguardada adaptação do livro de José Saramago por Fernando Meirelles. O elenco é liderado pela magnífica Julianne Moore, e tem Mark Ruffalo, Danny Glover, Alice Braga e Gael García Bernal. A história mostra como os habitantes de uma metrópoles vão todos, de repente e sem explicação, ficando cegos. Apenas a mulher do oftalmologista (Julianne) ainda consegue enxergar, mas finge que não para acompanhar o marido quando ele é confinado com outros atingidos pela epidemia. Ela testemunha os seres humanos rumo à degradação quando os instintos primários começam a prevalecer nesse local isolado. O filme alterna altos elogios e duras críticas. Só no Box.

- Perigo em Bangkok: Nicolas Cage é um assassino profissional que vai a Bangcoc (o título nacional escreve errado o nome da capital da Tailândia, apenas imitando a maneira como se escreve em inglês) para resolver uns assuntos e é ajudado por um ladrão de rua. Acaba se apaixonando por uma tailandesa e começa a rever suas atitudes. Ou esse filme me surpreende ou vou continuar pensando que os bons filmes de Cage são acidentes de percurso. Só no Box.

DOSE DUPLA NOS CINEMAS (2)

Eu tinha esquecido mais uma!

 
Alexa Davalos, em Banquete do Amor e O Nevoeiro

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