NÚPCIAS REAIS

Excelência habitual

“Eu me senti tão feliz que poderia dançar pelas paredes e pelo teto”, diz Anne, personagem de Sarah Churchill em Núpcias Reais (The Royal Wedding, Estados Unidos, 1951) sobre o primeiro encontro com um antigo amor. “Se você puder fazer isso, eu te consigo um bom contrato”, responde Tom, personagem de Fred Astaire. A piada sem maiores conseqüências é, na verdade, a deixa e o pretexto para um dos números musicais mais surpreendentes já realizados no cinema: “You’re all the world to me”, onde Astaire literalmente dança pelas paredes e pelo teto de seu quarto de hotel – sem cortes!

Para quem vê a primeira vez, a surpresa é certamente amenizada pela idéia de que, se alguém no mundo poderia fazer aquilo, certamente esse alguém era Fred Astaire. Por isso, e pela perícia narrativa de Stanley Donen, a cena soa extremamente natural, embora seja irreal até a sola da sapatilha de dança de Astaire. Donen quase nunca é lembrado quando se enumera os grandes diretores da história do cinema, o que é uma injustiça. Nem todo mundo conseguia fazer um musical fluir sem solavancos como ele, passando do “real” para o “fantástico” e voltando, como se todo mundo pudesse fazer a mesma coisa.

Núpcias Reais não é um dos seus melhores filmes – mas observe que os melhores são dificilmente superáveis: Cantando na Chuva (1952), Sete Noivas para Sete Irmãos (1954) e Um Dia em Nova York (1949). Assim, Núpcias Reais ainda está num patamar bastante confortável na linhagem dos musicais da Metro, ou de qualquer estúdio. A história bobinha do roteiro de Alan Jay Lerner – Fred e Jane Powell são Tom e Ellen, um casal de irmãos dançarinos que vão a Londres apresentar seu show na época do casamento da Princesa Elizabeth (hoje, Elizabeth II), e tem leves encontros e desencontros amorosos por lá – é compensada por bons diálogos, o carisma dos dois atores e alguns ótimos números musicais.

O fato de Fred e Jane interpretarem irmãos evoca, naturalmente, o começo de carreira do próprio Fred Astaire, em que fazia dupla com a irmã Adele. Ela abandonou o meio artístico para se casar, um impasse que até acontece em determinado momento de Núpcias Reais, mas que não demora muito para ser resolvido. A namoradeira Ellen se engraça já na viagem com John (Peter Lawford), um americano com título de nobreza. Tom, por sua vez, se encanta na rua com Anne (Sarah Churchill – filha do primeiro-ministro Winston!) e descobre que ela será uma das dançarinas da versão inglesa do show. Naqueles tempos, o casamento de Ellen levaria ao fim da dupla.

O filme parece evocar também a parceria de Fred e Judy Garland em Desfile de Páscoa (1948). Não é à toa: June Allyson estava escalada para o papel, mas teve que desistir porque ficou grávida. Judy foi a próxima opção, mas seu contrato com a Metro terminou no ano anterior e não foi renovado. Assim, a vaga acabou com Jane Powell. Ela, que depois faria Sete Noivas para Sete Irmãos, fazia o tipo soprano, diferente do tom jazzístico de Judy. Mas divide com Fred um número cômico que lembra muito “A couple of swells”, de Desfile de Páscoa (aquele em que Fred e Judy aparecem como mendigos): “How could you believe me when you know I’ve been a liar all my liar” é seu grande momento no filme, em que mostra talento como dançarina (geralmente ofuscado por suas habilidades vocais).

Há momentos especialmente inspirados da direção de Donen. Como a cena da parada, onde ouvimos apenas o som que atrapalha uma declaração de amor do casal que está muito mais entretido um com o outro do que com o mundo ao redor. Ou a fusão de Fred e Jane com as torres da Abadia de Westminster. O filme também brinca muito com a relação entre ingleses e americanos e uma piada particularmente engraçada fica reservada para o ator nova-iorquino Keenan Wynn, que interpreta gêmeos: um, o super-americano empresário da dupla; outro, o super-britânico irmão que ajuda na produção da versão londrina do espetáculo. Uma divertida cena os põe ao telefone e mostra o talento de Wynn.

Talento não falta no filme. Veja a cena do número de dança a bordo do navio, que o mar agitado faz questão de atrapalhar. É claro que todos os escorregões e quedas de Astaire e Jane Powell são minuciosamente coreografados, além dos objetos que deslizam de um lado para outro (as danças são assinadas por Nick Castle, mas Astaire sempre trabalhou na criação junto com seus coreógrafos). A cena é baseada numa viagem do próprio Fred a Londres, em 1923. E se ainda não for o suficiente, há no filme um segundo número definitivo a carreira de Astaire: o número de dança em que o parceiro dele é um guarda-chapéus. Ao lado dele, qualquer um parecia ser um grande dançarino.

Em tempo: o efeito especial de “You’re all the world to me” quebrou a cabeça dos cinéfilos por muito tempo. Há alguns anos foi revelado o segredo: colocaram simplesmente o cenário inteiro para girar, enquanto a câmera ficava fixa, no "chão". E sem computadores!

Frase:
ELLEN (na manhã do casamento real): Gostaria de saber o que estaria fazendo um mês antes do meu casamento...
TOM: Provavelmente tentando encontrar um meio de cair fora.
ELLEN: Você realmente pensa assim?
TOM: Você sabe que estaria.

Núpcias Reais (The Royal Wedding). Estados Unidos, 1951. Direção: Stanley Donen. Elenco: Fred Astaire, Jane Powell, Peter Lawford, Sarah Churchill. Disponível em DVD pela Classic Line e pela London Classic.

ESTRÉIAS DE SEXTA, 29/8, EM JP

- Asterix nos Jogos Olímpicos: É o terceiro filme com atores adaptando os quadrinhos de René Goscinny & Albert Uderzo e se tornou o filme mais caro já feito na França. Há um novo ator no papel de Asterix (Clovis Cornillac), mas Gérard Depardieu continua no papel de Obelix. E Alain Delon também está no filme, como Júlio César! Só dublado. No Box e no MAG.

- O Banheiro do Papa: Filme uruguaio co-dirigido por César Charlone (diretor de fotografia de Cidade de Deus). Na fronteira com o Brasil, um contrabandista tenta ganhar uma grana aproveitando-se da visita do papa em seu povoado: ele cria um banheiro público para atender aos visitantes. Só no MAG.

- Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírito: Carlos Vereza interpreta o médico que, no século 19, não conseguia deixar de ajudar os menos favorecidos. O filme é um,a produção cearense, com ligações com a comunidade espírita, e tem alguns paraibanos no elenco: Everaldo Pontes, W.J. Solha, Fernande Teixeira e Tarcísio Pereira. Só no Box.

- Encarnação do Demônio: José Mojica Marins volta a dirigir e interpretar o Zé do Caixão, coveiro niilista que quer encontrar a mulher perfeita e gerar o filho perfeito. Neste filme, ele sai da prisão após 40 anos para concluir a trilogia iniciada por À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). Só no Box.

- A Ilha da Imaginação: Abigail Breslin (Pequena Miss Sunshine) vive numa ilha com o pai (Gerard Butler) e seus amigos animais. Quando o pai sofre um acidente, ela pede ajuda ao autor de seus livros de aventura preferidos - que ela não sabe que é uma mulher (Jodie Foster), e bem medrosa. Dublado e só no Box.

- O Nevoeiro: Frank Darabont volta a dirigir uma adaptação de Stephen King - e se o escritor não é garantia nenhuma de um bom filme no cinema, com Darabont funcionou duas vezes (em O Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre). Agora, a névoa que cai sobre uma cidade esconde criaturas que ameaçam a população. Um grupo tenta sobreviver após se abrigar em um supermercado. Só no Box.

- O Reino Proibido: Jet Li e Jackie Chan juntos na China made in Hollywood. Um adolescente obcecado por kung fu vai parar na China ancestral e encontra personagens vividos pelo dois astros, a quem ajuda a enfrentar um vilão. Só no Box.

AH, JULIANNE...

A belíssima Julianne Moore está no Brasil para a divulgação e pré-estréias de Ensaio sobre a Cegueira e deu uma entrevista ao Jornal da Globo:

 

Ensaio sobre a Cegueira estréia no Brasil dia 12, com 100 cópias - estamos torcendo para que João Pessoa entre no lançamento. Aproveitando, Linha de Passe estréia uma semana antes, dia 5. Para quem não viu no Jornal da Paraíba, vou publicar aqui depois a matéria da entrevista coletiva com Sandra Corveloni, que foi a melhor atriz em Cannes pelo filme. E também a crítica do filme.

STAR WARS - THE CLONE WARS

½

Guerra desanimada

A melhor coisa sobre Star Wars - The Clone Wars (Star Wars - The Clone Wars, Estados Unidos/ Singapura, 2008) foi dita pelo site Omelete, sobre um possível futuro lançamento dos filmes originais da série em 3D: “George Lucas vai continuar testando até onde chega o ponto de saturação dos fãs de Star Wars”.  O teste, aqui, já é grande porque este sétimo filme da série (o primeiro em animação e, na verdade, piloto de uma série para a TV), é uma queda e tanto de qualidade.

Uma queda e tanto, inclusive se comparada à trilogia-prelúdio (A Ameaça Fantasma, 1999; Ataque dos Clones, 2002; A Vingança dos Sith, 2005), que só disse a que veio, mesmo, no terceiro filme. The Clone Wars se localiza entre os episódios II e III, e a série vai focar na guerra que estabelece as bases para o que acontece na primeira trilogia (os clássicos Guerra nas Estrelas, 1977; O Império Contra-Ataca, 1980; e O Retorno de Jedi, 1983).

O fato de ser um produto originalmente produzido para a TV e levado ao cinema já pesa contra The Clone Wars. A animação, de cara, já apresenta o pior erro que uma animação por computador pode ter: parece feita por computador. Os traços herdados da primeira série de animação Guerras Clônicas, do mesmo Genndy Tartakovsky de As Meninas Superpoderosas e Samurai Jack, simplesmente não funcionam digitalizados.

Além disso, a história é banal, girando em torno de uma conspiração que envolve o seqüestro de um filho de Jabba, o Hutt. Os jedis podem ser incriminados e precisam salvar o guri e entregá-lo em segurança. Uma jovem jedi, Ahsoka Tano, surge como aprendiz de Anakin (que todo mundo que viu os filmes sabe quem é e quem vai ser) e o filme se concentra na relação entre eles. Há humor demais e efeitos visuais demais. História, que é bom, há de menos.

Frase
AHSOKA: (no meio de uma batalha em que ela e Anakin devem proteger o bebê Jabba)  Ótimo! Você acordou o bebê!

Star Wars - The Clone Wars. (Star Wars - The Clone Wars). Estados Unidos/Singapura, 2008. Direção: Dave Filoni. Vozes originais: Matt Lander, James Arnold  Taylor, Ashley Eckstein, Tom Kane, Samuel L. Jackson, Anthony Daniels, Christopher Lee. Atualmente em cartaz em João Pessoa e Campina Grande.

MENINAS QUE EMOCIONAM

Eu torço por Maurren Maggi há muito tempo, desde antes daquele problema com o doping (sobre o qual ela disse que pagou pela vaidade, já que a substâncuia proibida estava em um creme de beleza). Por isso, me emocionou muito a vitória dela e em especial, claro, o momento em que ela chora no pódio, na hora do "terra adorada" do hino nacional. Só o Brasil produz cenas assim.

E chorei com as meninas do vôlei, no momento do "obrigado, Senhor" das meninas do vôlei e seu abraço no chão, quebrando o protocolo olímpico. O Galvão Bueno roubou minhas palavras (mas como eu disse sozinho em casa, acho que não vale): essa medalha não é sé delas, é também da Virna, da Leila, da Fernanda Venturini, da Ana Moser, e mais ainda, da Vera Mossa, da Jaqueline, da Isabel. Finalmente, esse outro veio!

SUPER-HOMENS DO ORKUT (2)


Cristóvam Tadeu (com Fernanda Albuquerque)

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