AOS 16

Para quem achava que não ia acontecer (ou até para quem não sabia), está aí: a Turma da Mônica Jovem, em uma edição especial de lançamento (um "número 0" para ser distribuído em eventos). É uma nova revista, mostrando os personagens aos 16 anos e em um estilo próximo ao mangá. Também há mudanças comportamentais nos personagens, dos quais eu já sei alguma coisa, mas não em detalhes.

Me parece que a Magali continua comilona, mas agora só de alimentos saudáveis, o Cascão passou a tomar banho (mas a contragosto) e o Cebolinha fez um tratamento com uma fonoaudióloga para falar direito (!) e virou o rei da internet (ah, e agora é só Cebola). E a Mônica? Bom, que ela não é mais baixinha e gorducha, mas continua dentuça, vê-se pela capa. O vestidinho vermelho também foi aposentado. O Sansão está lá. E o gênio, continuará o mesmo? E esse abraço sugestivo aí na capa?

Sinceramente, a estética mangá nunca me agradou muito. Também não gostei da maioria dessas mudanças de comportamento, que "descartunizam" bastante a turminha e parecem simplesmente outra batalha perdida para o politicamente correto. Mas não deixa de ser uma experiência interessante. E a Mônica ficou bonitinha.

ESTRÉIAS DE SEXTA, 25/7, EM JP (E CG)

- Arquivo X - Eu Quero Acreditar: Depois de anos afastados do FBI (e seis anos após o fim da série), Mulder e Scully voltam a se encontrar para resolver um caso que envolve o desaparecimento de uma agente e um padre pedófilo. Só no Box.

- Banquete do Amor: Morgan Freeman é um professor que vê o desenrolar dos romances na comunidade em que vive. Só no Iguatemi, em Campina (!).

- Space Chimps - Micos no Espaço: Animação com macacos que a Nasa manda ao espaço para investigar a vida alienígena. Só no Box.

MUSAS DE 2007

1 - KATE WINSLET (PECADOS ÍNTIMOS)

 

Como uma dona de casa de subúrbio que participa de um grupo de leitura com as vizinhas e encontra, a personagem de Kate Winslet em Pecados Íntimos vê sua própria condição ao discutirem Madame Bovary: ela também tem um caso com um vizinho casado - e olhe que esse vizinho tem, como esposa, uma mulher que é interpretada por ninguém menos que Jennifer Connelly, nossa quarta colocada do ano. Mas Kate, com um vulcão interno prontinho para entrar em erupção, desinibida e sem culpa, conquista cada cena para si. Sua personagem pode até ser julgada, mas não o talento e os encantos da atriz. Para ver também: Almas Gêmeas; Titanic; Fogo Sagrado; Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças; Contos Proibidos do Marquês de Sade; Razão e Sensibilidade.

Outras musas de 2007 (procure nestas páginas):
2 - Scarlett Johansson (Scoop - O Grande Furo)
3 - Tainá Muller (Cão sem Dono)
4 - Jennifer Connelly (Diamante de Sangue)
5 - Cate Blanchett (Notas sobre um Escândalo)
6 - Dira Paes (Baixio das Bestas)
7 - Gong Li (Hannibal - A Origem do Mal)
8 - Débora Falabella (O Primo Basílio)
9 - Naomi Watts (O Despertar de uma Paixão)
10 - Beyoncé Knowles (Dreamgirls - Em Busca de um Sonho)
11 - 12 - 13 - 14 - 15

Musas de 2006
  
1 - Scarlett Johansson (Ponto Final - Match Point; Dália Negra; O Grande Truque)

2 3 4
5 6 7
8 9 10
2 - Anne Hathaway (O Segredo de Brokeback Mountain; O Diabo Veste Prada); 3 - Penélope Cruz (Volver); 4 - Mia Kirshner (Dália Negra); 5 - Claire Danes (Garota da Vitrine); 6 - Juliana Knust (Achados e Perdidos); 7 - Uma Thurman (Os Produtores); 8 - Eva Green (007 – Cassino Royale); 9 - Gong Li (Miami Vice; Memórias de uma Gueixa); 10 - Keira Knightley (Orgulho & Preconceito).

Musas de 2005

1 - Naomi Watts
(King Kong)

2 3 4
5 6 7
8 9 10
2 - Maria Bello (Marcas da Violência); 3 - Rachel Weisz (O Jardineiro Fiel); 4 - Paz Vega (Espanglês); 5 - Natalie Portman (Closer - Perto Demais); 6 - Kirsten Dunst (Tudo Acontece em Elizabethtown); 7 - Jennifer Tilly (O Filho de Chucky); 8 - Alice Braga (Cidade Baixa); 9 - Catalina Sandino Moreno (Maria Cheia de Graça); 10 - Diane Lane (Procura-se um Amor que Goste de Cachorros).

A OUTRA

½

Rivais em família

Houve outra Bolena além de Ana, a mulher por quem Henrique VIII se separou de Catarina de Aragão - rompendo, também, com a Igreja Católica - e mãe de Elizabeth, rainha inglesa que “estrelou” dois filmes com Cate Blanchett. Esta foi Maria, sua irmã, A Outra (The Other Boleyn Girl, Reino Unido/ Estados Unidos, 2008) do título do filme de Justin Chadwick.

Ou “a outra” seria Ana? A trama mostra como vítima a bem menos famosa das irmãs, que virou primeiro amante do rei, só depois vendo Ana ocupar seu lugar - para chegar a ser coroada rainha da Inglaterra. Apesar de ser bastante fiel ao andamento dos fatos históricos, o filme acaba sofrendo por causa desse maniqueísmo: enquanto Maria é incapaz de uma má intenção, desejosa de uma vida simples e, depois de forçada a se entregar ao rei (Eric Bana), se apaixonar mesmo por ele, Ana aparece apenas como vingativa e ambiciosa.

Natalie Portman, como Ana, acaba se aproveitando disso e tem uma atuação que impressiona muito mais do que Scarlett Johansson, como Maria. O filme ganha, porém, pela trama em si, que é um pedaço importante de um dos períodos mais interessantes da história do Reino Unido - e que, sem exagero, mudou os rumos do mundo (dividiu a Inglaterra entre católicos e protestantes, o que influenciou a política externa do império daí para a frente).

Sem ser extraordinário, A Outra integra-se bem ao vasto painel da dinastia Tudor no cinema, cujos primordios estão nas versões de Henrique V (1944 e 1989), passam pelos vários filmes com Henrique VIII e suas esposas (foram seis), como O Homem que Não Vendeu Sua Alma (1966) ou Ana dos Mil Dias (1969) e chega até Elizabeth (1999) e Elizabeth - A Era de Ouro (2007), com o fim da dinastia.

Frase
MARIA BOLENA: "Você sabe que eu o amo!".
ANA BOLENA: "Bem, talvez você deva parar".

A Outra. (The Other Boleyn Girl). Reino Unido/ Estados Unidos, 2008. Direção: Justin Chadwick. Elenco: Natalie Portman, Scarlett Johansson, Eric Bana, Jim Sturgess, Mark Rylance, Kristin Scott Thomas, Ana Torrent. Atualmente em cartaz no MAG Shopping.

BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS

Um jogo de luz e trevas

Como Batman, Bruce Wayne pode ir aonde nenhum outro homem pode. Mas isso dá a ele o direito de ultrapassar certos limites? Em última instância, é sobre isso que trata Batman, o Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, Estados Unidos, 2007), o segundo da série dirigida por Christopher Nolan (e iniciada por Batman Begins, 2005). O Coringa arrasador e desconcertante de Heath Ledger está no filme para isso: para testar o herói, testar o incorruptível promotor público Harvey Dent, testar os habitantes de Gotham City e, por fim, testar a própria platéia do cinema.

A ética e a responsabilidade são fatores fundamentais no filme. Batman (Christian Bale) se pergunta se o que faz é realmente necessário, se está trazendo mais mal ou bem à cidade que quer defender. O Coringa, pelo contrário, aparece para bagunçar o coreto, para ver "o circo pegar fogo", como diz o mordomo Alfred (Michael Caine). É um anarquista, que não está nessa por dinheiro. Em certo momento, diz que não segue regras ou planos - mas não é bem verdade. O plano do palhaço do crime é enlouquecer uma cidade inteira e suas ações, num crescendo, vão efetivamente levando a isso.

Ledger cria um Coringa para não se esquecer jamais - e, sejamos justos, isso já vinha sendo antecipado muito antes da morte do ator, em janeiro. Com ele, o espectador vai do riso ao choque, e de volta, em vôos sem escalas. Com ele, não há limites ou censura - e para os que querem caçá-lo? Há também os que mantêm os pés no chão em meio à espiral de loucura, as âncoras para os heróis em meio à tempestade: Jim Gordon, Alfred e Lucius Fox, todos esplendidamente interpretados respectivamente por Gary Oldman, Michael Caine e Morgan Freeman, graças também à direção generosa, que deu espaço a todos eles. Bale também está ótimo ao mostrar o super-herói em dúvida - uma humanidade que faz muito bem ao personagem - e Maggie Gyllenhall mostra o quanto Batman Begins perdeu ao escalar equivocadamente Katie Holmes como a mocinha.

O filme é calcado não só na ação, mas nas relações humanas - o principal ponto de realismo do filme, e onde todos esses grandes atores fazem diferença. É isso o que faltava nos dois filmes de Tim Burton, e Nolan já ensaiava no Batman Begins para atingir a plenitude neste Batman, o Cavaleiro das Trevas. Ele se apoiou em duas das melhores histórias do Homem-Morcego, combinando elementos de A Piada Mortal, na qual o Coringa quer provar que basta um dia ruim para enlouquecer alguém, e O Longo Dia das Bruxas, focada em Harvey Dent (Aaron Eckhart, no filme). Os momentos de diálogo entre Batman e Coringa são emblemáticos, explorando o circular jogo de luz e trevas entre eles - só esses momentos já dariam a esse filme o lugar de melhor adaptação do Homem-Morcego já feita para o cinema. Mas há muito, muito mais, em um resultado difícil de ser alcançado por qualquer filme de super-heróis. Ou por qualquer filme e ponto final.

Frase
CORINGA: "Esta cidade merece uma classe melhor de criminosos".

Batman, o Cavaleiro das Trevas. (The Dark Knight). Estados Unidos, 2008. Direção: Christopher Nolan. Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Morgan Freeman, Monique Curnen, Cillian Murphy, Eric Roberts, Anthony Michael Hall. Atualmente em cartaz no Box Manaíra, MAG Shopping e Tambiá Shopping, todos em João Pessoa, e no Shopping Iguatemi, em Campina Grande.

* Versão estendida da crítica que será publicada amanhã no JP.

PACTO DE SANGUE

O tapete que será puxado

Walter Neff acha que é mais esperto que a maioria dos ursos. É um bom vendedor de seguros, tem o respeito do esperto chefe, está numa boa. Mas quando Phyllis Dietrichson aparece de toalha no alto da escada da casa em que ele foi ver um cliente e não consegue tirar os olhos dela, ele deveria reconhecer que também tem suas fraquezas. É a trama típica dos filmes noir: um sabichão se mete onde não deve ou dá um baita azar e vida puxa-lhe o tapete. A mulher fatal (o próprio sexo em pessoa andando em ondas em frente ao nosso protagonista), os diálogos cínicos e cortantes e a atmosfera sombria (uma representação da alma dos personagens e, talvez, do mundo inteiro) – está tudo em Pacto de Sangue (Double Indemnity, Estados Unidos, 1944), mas tão perfeitamente combinado que o filme segue o modelo do gênero.

Walter é Fred MacMurray, Phyllis é Barbara Stanwick. Ele não é um ator de muitos recursos, mas para o que Billy Wilder quer aqui, é perfeito: um sujeito que gosta de demonstrar que está no controle da situação mesmo quando sabe que não está. Walter não se dá conta disso imediatamente: na maior parte do tempo ele acha que é quem comanda as ações do casal, em sua trama de assassinato. Ela quer o marido morto e juntos armam um plano em que o agente vende uma apólice à futura vítima de um modelo em que a indenização é dupla no caso de morte por acidente (daí o título original). Ele planeja o todo o elaborado golpe – mas é Phyllis que, no fundo, o controla, usando todo o sex appeal que possui para enredar Walter.

Nenhum segredo nisso: Pacto de Sangue já começa pelo final, com Walter fazendo sua confissão em um ditafone no escritório, para que depois seu chefe a ouça. “Você não percebeu esta porque o homem que estava procurando estava muito perto – bem à frente da sua mesa”, ele diz. Keyes, o chefe vivido por Edward G. Robinson, não acredita um minuto sequer na história do acidente, na trama contada toda em flashback. “Aquele pequeno ser dentro do meu estômago me diz isso”, diz. Neff o respeita, e talvez a parte mais difícil na coisa toda seja decepcioná-lo. Keyes é esperto, um elemento do qual o plano perfeito de Neff a qualquer momento pode não dar conta.

A história é de James M. Cain, autor de outra trama noir exemplar: O Destino Bate à Sua Porta, filmado na América em 1946 (com Lana Turner e John Garfield), em 1981 (com Jessica Lange e Jack Nicholson) e na Itália em 1942, como Ossessione, por Luchino Visconti. Wilder sempre gostou de escrever com um parceiro e chamou o escritor policial Raymond Chandler para co-roteirizar o filme. Se não foi ódio à primeira vista, demorou pouco para acontecer (uma das histórias sobre os dias em que os dois ficaram trancados na sala pensando e escrevendo o roteiro diz que uma das irritações de Chandler dava-se porque Billy levanta-se para ir ao banheiro o tempo todo; e Billy fazia isso porque não agüentava ficar 15 minutos na mesma sala com Chandler). 

Seja lá como tenha sido, o resultado é um primor. Chandler, criador de Philip Marlowe, um dos dois detetives mais famosos da literatura policial (o outro é Sam Spade, de Dashiell Hammett) e autor de livros como O Sono Eterno e Adeus, Minha Adorada, imprimiu toda a crueza que já dominava e uniu seu cinismo ao de Wilder, que por sua vez é o campeão do mundo de frases antológicas no cinema. Há uma série longa delas do primeiro ao último minuto de Pacto de Sangue. O clima do filme ainda ganhou muito com a fotografia definitiva para o gênero de John Seitz – não só por ter mais sombras que luz, mas por sacadas como o uso das persianas, e a luz que passa por elas projetando um efeito nos personagens que evoca o uniforme dos presidiários.

Conta-se também que ninguém em Hollywood estava muito interessado em filmar Pacto de Sangue (a história original é de 1930). O Código Hayes estava à toda e aquela história sórdida – um coquetel explosivo de assassinato e sexo adúltero – ia contra todos os valores “familiares” que o código “defendia”. Wilder encarou tudo e moldou a trama para que os censores do estúdio (a Paramount) não se metessem. Mostrou que a sordidez pode estar em qualquer lugar: se você está fazendo compras em um inocente supermercado de subúrbio, a pessoas na prateleira ao lado podem ser cúmplices de um frio assassinato. E se dava para mostrar abertamente, por exemplo, que Walter e Phyllis transaram, Wilder tratou de colocar lá um indício forte: a maneira como eles se beijam e, depois de um fade, estão esparramados no sofá (ela, se recompondo). Driblar esses impedimentos era o esporte preferido de Billy Wilder.

Frase
WALTER: “Eu o matei por dinheiro. E por uma mulher. Não consegui o dinheiro. Também não consegui a mulher”.

Pacto de Sangue. (Double Indemnity, Estados Unidos, 1944). Direção: Billy Wilder. Elenco: Barbara Stanwyck, Fred MacMurray, Edward G. Robinson, Porter Hall, Jean Heather. Em DVD, pela Versátil.

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