SEÇÃO DE CARTAS

Alana, é mesmo emocionante o vídeo, né? Bom ver uma emoção sincera, pra variar. E esse Meirelles é um cara muito gentil antes de tudo, isso sim. E adoro a Simone Spoladore, mas o filme poderia ter dado mais destaque a ela. E a Débora é uma graça. ("A emoção de Saramago",  23/5; "Musas de 2007", 15/5)

E nunca que Naomi é uma anti-Nicole Kidman, Astier! Ela tem luz própria! ("Musas de 2007", 7/5)

Tiago, com atraso, seja bem-vindo ao blog. Espero que continue vindo! ("Sábado, 19h, Cine Bangüê", 18/4)

COMENTÁRIO (BEM) ATRASADO SOBRE CANNES

Primeiro, o que é esse prêmio da Sandra Corveloni, hein?

Quando vi a chamada do Bom Dia Brasil dizendo que uma brasileira ganhou o prêmio de melhor atriz, fiquei pensando quem seria. Dificilmente seria Alice Braga - não que não seja boa atriz, mas não houve tanta repercussão assim do trabalho da sobrinha da Sonia em Ensaio sobre a Cegueira. Isto posto e dado a ótima repercussão de Linha de Passe, deduzi: se é um filme sobre quatro irmãos, o prêmio deve ter sido para quem interpretou a mãe deles.

Na volta do jornal, a resposta se confirmou. Como o filme foi terminado ás vésperas do festival, nem havia visto fotos da atriz - que não foi a Cannes, porque estava se recuperando de ter perdido o bebê que esperava, o que Daniella Thomas lembrou ao receber o prêmio.

O que eu acho? Maravilha, claro. Muita gente às vezes se esquece como há grandes atores e atrizes que dificilmente conseguem o espaço que merece na televisão, por exemplo. Caso de Carla Ribas, esplêndida em A Casa de Alice, ou de Soraya Ravenle - de quem sou fã assumido - nos vários musicais de que participa (atualmente está em Beleza Pura, num papel razoável, mas merece bem mais).

Não chega a surpreender que uma personagem que cria sozinha quatro filhos que tentam buscar uma direção para a vida na periferia de São Paulo tenha conquistado um júri que tem Sean Penn na presidência - e Marjane Satrapi e Natalie Portman, entre seus membros. Um grupo muito politizado, e não foi por outra razão que as questões políticas foram ressaltadas quando se noticiou o vencedor da Palma de Ouro: o francês Entre les Murs, de Laurent Cantet.

O filme se baseia num livro do professor François Begaudeau e fala das dificuldades de se lidar com os adolescentes em sala de aula, em um país onde a xenofobia tem se tornado um problema cada vez mais sério - inclusive por declarações do Sarkozy, presidente de lá. O assunto est´pa na ordem do dia na França. Entre os atores, Benicio del Toro ganhou por Che, o monumental trabalho de Steven Soderbergh (são, na verdade, dois filmes que ele mostrou em Cannes como se fosse um só). E os irmãos Dardenne ainda levaram o de roteiro, por Le Silence de Lorna, que tambpem fala de imigração na França.

De 2002 para cá, todos os vencedores da Palma de Ouro têm tido, em maior ou menor grau, um teor político muito forte (e várias vezes decisivo para a premiação): O Pianista (2002), Elefante (2003), Fahrenheit 11 de Setembro (2004, altíssimo grau), A Criança (2005), Ventos da Liberdade (2006, altíssimo grau) e 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007). O ponto é: até onde a postura política ajuda ou atrapalha na escolha pelo melhor filme do festival?

CINEMA/ 'INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL'

Um mais que legítimo Indiana Jones

É covardia – e talvez até suicídio para a saúde da sua sessão de cinema – assistir a Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008) esperando um novo Os Caçadores da Arca Perdida (1981) ou Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984). Esses, ninguém consegue repetir, são obras de exceção – é praticamente um milagre que o segundo filme da série tenha se tornado uma obra-prima do quilate do primeiro. Assim, faça como eu, mentalize para reduzir a expectativa que reencontrar o bom e velho Indy no cinema após 19 anos fatalmente provoca. Um filme honesto da série, que não traia suas tradições e proporcione duas horas de entretenimento inteligente, tendo como mestre-de-cerimônias um dos heróis mais carismáticos já criados. Nesse sentido, o quarto filme da série cumpre o que promete.

A declaração de que a equipe do filme iria minimizar o que pudesse dos efeitos gerados por computador em prol de cenas realizadas “à moda antiga” (com cenários reais, dublês e demais efeitos visuais criados no set) foi só a primeira das decisões acertadas aqui. Isso ajudou o filme a compor visualmente com os outros três sem muita dificuldade – até porque Janusz Kaminski, o diretor de fotografia que tem acompanhado Steven Spielberg em seus últimos filmes, se preocupou em seguir o estilo de Douglas Slocombe, que assinou a fotografia dos três primeiros (e hoje está com 95 anos – seu último filme foi justamente Indiana Jones e a Última Cruzada, 1989). A montagem de Michael Kahn e, claro, a trilha de John Williams garantem ainda mais a linhagem.

Não esconder a idade de Harrison Ford – que já vai nos 65 – e brincar com ela foi outra. O personagem jovem de Shia LaBeouf – evocando o Marlon Brando de O Selvagem (1953) – faz questão de lembrar isso. Mas o filme toma cuidado de que isso não se reflita nas cenas de ação. Tal qual o Barão de Munchausen (que rejuvenecia quando vivia uma nova aventura), nem dá pra perceber a idade de Indy quando a ação acontece. Um excepcional trabalho de montagem, dublês e a disposição de Harrison Ford, que fez muitas cenas ele mesmo.

O filme se passa também 19 anos após o fim de Indiana Jones e a Última Cruzada, que acontecia em 1938. Em O Reino da Caveira de Cristal é, portanto, 1957. O filme deixa isso claro sempre que pode: começa com música de Elvis Presley, não demora a colocar a paranóia comunista em cena, a televisão, o perigo nuclear, a juventude transviada. Se o mundo mudou aqui fora dos anos 1980 para cá – e a série tem que lidar com um público que gosta de pagar para assistir a filmes que são pouco mais do que um punhado de efeitos computadorizados jogados numa tela (como Speed Racer, 2008, para ficar num exemplo recente) – também é um mundo novo para Indy dentro do filme.

Os anos 1950 não ficaram só na ambientação, pura e simples, mas infiltraram-se na razão de ser do filme. Assim como os três primeiros se passavam nos anos 1930 e eram releituras dos seriados do gênero “veja-na-próxima-semana-se-o-herói-vai-escapar-desta-armadilha” da época, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal evoca os filmes B de ficção científica – que era onde Hollywood extravasava a paranóia comunista. A mudança de temática é bem leve, mas se faz sentir – e pode causar alguma estranheza. Mas, para quem já viu Indiana descobrir na prática o poder de artefatos religiosos e pedras místicas hindus, não deveria haver problema algum nisso.

O mesmo vale para um ou outro exagero além da conta no filme. O problema não é Mutt (LaBeouf) se pendurar num cipó como Tarzan – mas, sim, a facilidade como faz isso na primeira vez! Por outro lado, a fuga na geladeira é grandiosa, mas não mais absurda do que parar um vagão em altíssima velocidade com o pé (como Indy faz em O Templo da Perdição), ou ser ultrapassado em um túnel por um avião em chamas (como em A Última Cruzada).

Se há um problema no filme, ele se chama Professor Oxley (John Hurt). Pretendiam ter Sean Connery no filme, reprisando seu antológico papel de pai de Indy em A Última Cruzada. Mas ele não topou sair da aposentadoria e aí há um remendo ainda perceptível nesse novo personagem – mas Hurt, para variar, está muito bem, é bom que se diga.

A volta de Marion (Karen Allen), saudada com gritos de alegria quando anunciada pelo próprio Spielberg na Comic-Con do ano passado, é uma delícia de ver. Mas ela bem que poderia ser melhor aproveitada: perdeu um pouco a atitude durona que tinha em Os Caçadores da Arca Perdida. Parece que não houve muito tempo para isso no meio da correria e de tanta gente no filme. Mesmo assim, ela tem seus momentos e O Reino da Caveira de Cristal devolve a Marion o lugar que sempre deveria ter tido na série – o final do filme sacramenta isso.

Cate Blanchett, pelo contrário, tem todo o tempo para se divertir com seu papel. Mais uma vez, mostra que é uma jóia na criação de sotaques e tipos (uma sucessora legítima de Meryl Streep). Sua personagem é unidimensional sem qualquer concessão e, ainda assim, funciona plenamente. Com outra atriz, poderia ser um fiasco total.

Como no primeiro e no terceiro filmes, tudo se resume a uma corrida para chegar primeiro a uma descoberta arqueológica sem precedentes – e a liberação de poderes ilimitados. No lugar dos nazistas, ponham-se os soviéticos. Algo delicado, já que os nazistas continuam – e sempre serão – vilões indefensáveis, mas os russos não (ainda mais depois da Glasnost). Espera-se que tudo seja, no fundo, levado na brincadeira – como mostrar uma imagem de Foz do Iguaçu como se fizesse parte da Amazônia, o que só deve aborrecer aos chatos de galochas.

Não há mais o sabor de novidade – e nem poderia haver. O quarto filme é menos referente a um estilo de cinema do que à própria série – e ninguém poderia imaginar que seria diferente. Se antes isso não tinha tanta importância (as namoradas anteriores nem eram citadas nos filmes seguintes), agora aparecem o tempo todo elementos que remetem aos três primeiros filmes e até à série O Jovem Indiana Jones. Indy ganhou uma preocupação com continuidade que não havia – ou havia muito moderadamente.

Até chegarmos ao simbolismo do chapéu, no final, que está meio ao gosto do freguês: pode significar que Shia LaBeouf tem chances de ganhar sua própria série. Eu acho que diz exatamente o contrário: que não há série sem Indiana Jones à frente. Em todo o caso, o chapéu abre e fecha o filme, sublinhando como a série resolveu de falar de si mesma.

A memória afetiva pode ajudar ou atrapalhar na curtição deste filme. Há o carinho pelo personagem e a vontade de vê-lo de novo em ação, mas também a expectativa em torno desses reencontro pode jogar contra. Como competir com Caçadores e O Templo da Perdição, que, além de serem obras-primas por si sós, ainda possuem respectivamente 27 e 24 anos mitificadores sobre eles. Ninguém parece lembrar que A Última Cruzada já era um pouco abaixo e isso não chegou a ser um problema. Pois aqui também não é. É saboroso, ainda por cima, ver uma aventura que sabe dosar o ritmo e não confunde histrionismo com emoção. É só não esperar um novo Os Caçadores da Arca Perdida, mas, sim, uma legítima nova aventura de Indiana Jones – o que O Reino da Caveira de Cristal definitivamente é.

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