DVD/ 'ANJOS EXTERMINADORES'

Até onde ir?

Atores beijaram-se de boca fechada no cinema por décadas. Um dia, em nome do realismo, as bocas abriram-se. De lá para cá, os corpos são cada vez mais expostos  e cenas de sexo são cada vez mais realistas. Até chegarmos ao ponto de elas serem reais mesmo em filmes “sérios” como 9 Canções (2004) ou Anjos Exterminadores (2007), que chega agora ao DVD.

Atrizes expõem os corpos e simulam o sexo, tudo “em nome da arte”. Mas até onde se vai? Existe um limite? Anjos Exterminadores é sobre um diretor que quer investigar a sexualidade feminina. Para isso, faz testes e seleciona três atrizes daquelas que aceitam participar de seu projeto: liberarem seus desejos diante da câmera. Assim, as atrizes são filmadas se masturbando e transando entre si, e discutem suas sensações com o diretor.

A relação entre o filme e o “filme-dentro-do-filme” é grande. O sexo é explícito e sem pudores (só não é “ginecológico”, como nos pornôs) e como as atrizes não são pornôs (uma delas, Lise Bellynck, é até produtora executiva do filme), a discussão em torno do “até onde se vai pela arte” é o âmago do próprio filme.

Mesmo que, no fundo, Anjos Exterminadores seja um acerto de contas do diretor Jean-Claude Brisseau sobre o escândalo em que se envolveu: foi condenado por assédio sexual depois que quatro atrizes testadas e que não conseguiram o papel o acusaram de assédio sexual (ele teria obrigado as moças a se masturbarem em frente a ele). O filme seria sua justificativa de que “não foi bem assim”.

Parece meio papo furado, e os dois anjos caídos que aparecem para definir o destino do personagem também não ajudam muito. Melhor ver Anjos Exterminadores através da relação entre arte e os limites de entrega das atrizes. Dá uma boa discussão.

Em tempo: o nome do filme é inspirado no clássico O Anjo Exterminador (1962), de Luís Buñuel, mas não muito mais do que isso.

De verdade

Do beijo de boca aberta ao sexo oral, a exposição do corpo (principalmente feminino - ainda bem) no cinema foi longe, mas é difícil alguém ter imaginado que chegaríamos ao estágio de hoje, em que atrizes como Leila Lopes, que já fez novela das 8 na Globo, não encara fazer um filme de sexo explícito como o fundo do poço de sua carreira, mas como uma grande oportunidade e ainda aparece na imprensa promovendo-o. De uma forma ou de outra, isso forma um paralelo com filmes sérios que também mostra sexo para valer - algumas vezes, com atrizes de carreira respeitada e premiada. Veja como o sexo explícito foi pouco a pouco ganhado espaço no cinema não-pornô:


Império dos Sentidos (1976), de Nagisa Oshima - A paixão obsessiva de um casal japonês é filme de arte, mas não economiza nas cenas de sexo explícito. A "cena do ovo", então, ficou famosa. Virou hit na época em que a censura da ditadura marcava em cima.


O Diabo no Corpo (1986), de Marco Bellocchio - O filme político causou escândalo pela cena de sexo oral protagonizada pela atriz holandesa Maruschka Detmers


Romance (1999), de Catherine Breillat - A diretora francesa contratou um famoso ator pornô para contracenar com a atriz principal em sua história sobre as angústias femininas.


Intimidade (2001), de Patrice Chéreau - Homem e mulher se encontram regularmente e transam à beça, mas sem qualquer intimidade. Nem mesmo se conhecem. As cenas de sexo são fortíssimas, mas apenas encenadas - com exceção do sexo oral que a respeitada Kerry Fox aplica em Mark Rylance.


Ken Park (2002), de Larry Clark e Edward Lachman - Clark gosta de posar de entendedor dos jovens problemáticos da periferia americana. Se Kids já era forte, ele foi mais longe ainda em Ken Park, ultrapassando o limite do sexo explícito.


The Brown Bunny (2003), de Vincent Gallo - E não que o diretor-protagonista arrumou para si uma cena em que recebe um sexo oral de Chlöe Sevigny? Chlöe é a atriz que começou em Kids (1995), mas depois foi indicada ao Oscar por Meninos Não Choram (1999), e fez Dogville (2003), Melinda e Melinda (2004) e Zodíaco (2007).

 
9 Canções (2004), de Michael Winterbottom - Um casal alterna noites de sexo ardente e shows de rock de bandas ascendentes, como o Franz Ferdinand. Essa combinação deu boa popularidade ao filme do diretor de O Caminho para Guantanamo (2006).


Perdidos em Pequim (2007), de Li Yu - A úlktioma vez da China. Este filme foi censurado por lá justamente por causa das cenas de sexo explícito entre uma massagista, o chefe dela e a mulher dele.

MUSAS DE 2007

8 - Débora Fallabella (Primo Basílio)

O filme não é essas coisas todas, mas Débora Falabella mostrando que há fogo por baixo de tanto pano é unanimidade. Dá até para desculpar o Reynaldo Gianecchini no filme. Débora sempre foi linda, e sempre teve uma doçura sexy (ou uma sensualidade doce?), mas nunca havia se revelado tanto quanto em Primo Basílio. Para ver também: A Dona da História; Lisbela e o Prisioneiro.

Outras musas de 2007: 910 - 11 - 12 - 13 - 14 - 15

CINEMA/ 'SPEED RACER'

Pneu furado

Em determinado momento de Speed Racer (Speed Racer, Estados Unidos, 2008), Susan Sarandon diz ao filho piloto: “Quando você corre, eu fico sem fôlego”. Mãe é mãe e essa é a única explicação para essa frase. Pecando pela irrealidade extrema, o filme dos irmãos Wachowski não empolga em momento algum.

Carros com apetrechos existem desde o Batmóvel, passando pelo Aston Martin de 007 contra Goldfinger (1964). O problema é a tendência ao exagero que marca o cinema dos Wachowski desde o início. Com todos os efeitos especiais que podem ter ao alcance da mão, quem vai puxar o freio? Ninguém puxou e as corridas em Speed Racer mostram bólidos que dão saltos no ar a torto e a direito, lutam no ar como se fosse kung fu e isso tudo é mais importante que as ultrapassagens.

O filme investe no visual e nas cores fortes, com efeitos evocando a animação japonesa o tempo todo. Até as cenas de dia-a-dia foram feitas usando a tela verde: o céu não é só azul, mas superazul. As corridas, então, são um coquetel de pistas que lembram montanhas-russas e carrinhos digitais. Resultado: as cenas com atores parecem saídas de Pequenos Espiões e as corridas parecem disputadas por Hot Wheels.

O que há de interessante no filme acaba se perdendo mediante tanta poluição visual e narrativa. A maneira como são inseridos os flashbacks no início é interessante, mas os rostos definindo os cortes entre as cenas é repetido à exaustão e cansa.

O bom elenco garante que o filme, ao menos, não seja uma perda total. Susan Sarandon é que realmente acaba se saindo melhor - mas, pensando bem, suas cenas não tem realmente nada muito especial, apenas ganham em comparação por não serem tão fracas como o resto de Speed Racer.

INDY: CONTAGEM REGRESSIVA

Agora está confirmado: tem pré-estréia de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal no Box Manaíra quarta-feira. A versão dublada passa na sala 2, às 17h35 e 20h10; a legendada na sala 8, às 18h35 e 21h10. O filme entra nas salas 5 e 6 na quinta-feira (e deve entrar também no MAG e no Tambiá).

DEZ ANOS SEM "THE VOICE"

 

Quando Tom Jobim, que estava bebendo com os amigos, atendeu o telefonema no bar Veloso, em Ipanema, em 1966, e do outro lado da linha alguém disse que Frank Sinatra iria falar com ele, talvez não tenha achado que aquele era o maior momento de sua vida até então. Mas se tivesse, ninguém o censuraria. Sinatra, cuja morte completa dez anos na próxima quarta-feira, era simplesmente o homem mais poderoso do show business. Em 1966, Francis Albert Sinatra tinha 51 anos, e o mundo nas mãos.

Já havia antecipado os Beatles (quanto à histeria das fãs), viu sua carreira decair e a ressucitou com um Oscar e - mais sério ainda - sobreviveu ao fim do casamento com Ava Gardner e à morte do amigo-presidente John Kennedy. De lá para cá, só confirmaria o posto de maior cantor do século 20. Nada mal para um garoto que cresceu nas ruas de Hoboken, Nova Jersey.

Ele nasceu em 1915, filho de um bombeiro e uma imigrante italiana. A infãncia nas ruas o tornou duro na queda. É incrível que tenha subido na vida através da sensibilidade e graça das canções que imortalizou. Em 1940, já era crooner da orquestra de Tommy Dorsey. Começou a loucura das adolescentes que o perseguiam, seduzidas por sua voz. Mas um casamento com o ídolo teria que ficar só no sonho: “The Voice” já era casado desde 1939 com Nancy Barbato - com quem teria seus três filhos, Nancy, Frank Jr. e Tina.

Sinatra não se tornou um gangster, como poderia ter sido sem a música, mas foi notório amigo de mafiosos - como Lucky Luciano ou Sam Giancana. Foi um deles, Willie Moretti, que o ajudou a livrar-se de Dorsey. Não o matou - apenas o “convenceu” a liberá-lo. Em carreira solo, o cantor descobriu nos filmes musicais um veículo. Era o ingênuo parceiro de Gene Kelly em Marujos do Amor (1945) e Um Dia em Nova York (1948). Em Alta Sociedade (1955), teve um dueto histórico com Bing Crosby, o maior antes dele.

No ostracismo, foi o cinema que o salvou, com o papel dramático de A um Passo da Eternidade (1953), que valeu a ele o Oscar de ator coadjuvante. Já eram os anos Ava Gardner, que conseguiu para ele o papel salvador. Depois, ele ainda se casou brevemente com a jovem Mia Farrow, antes de sossegar ao lado de Barbara Marx.

Qual seu Sinatra preferido? O de baladas melosas como “Strangers in the night” e “My way”? O porta-voz dos maiores compositores da América como Cole Porter (“Night and day”) ou Gershwin (“They  can’t take that away from me”), entre outros compositores e outras canções? O que gravou com Tom Jobim (foi para convidá-lo que Sinatra ligou para ele no Veloso)? O ator de filmes dramáticos, como Sob o Domínio do Mal (1962)? Foram mais de 50 filmes e mais de 1.500 músicas. E muitos sorrisos e suspiros de quem curte música boa.

* Publicada no Jornal da Paraíba, em 11/5.

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