CEM ANOS DE DAVID LEAN

O cineasta dos épicos

No Oscar deste ano, a melhor piada  do apresentador Jon Stewart  envolveu um ipod. “Estou assistindo Lawrence da Arábia”, disse ele. Os magníficos desertos de Lawrence da Arábia (1962) são a assinatura visual de David Lean. O cineasta inglês, que estava na fase dos grandes épicos - havia feito A Ponte do Rio Kwai (1957) e faria Doutor Jivago (1965) -, completaria cem anos na próxima terça. Na infância, era proibido de ir ao cinema, mas seu legado é de amor total pelas imagens poderosas, para serem vistas nas maiores telas possíveis - e nunca em um aparelhinho.

Lean era de família tradicional. Quando adolescente, começou a trabalhar com contabilidade, como o pai, mas arrumou um emprego em um estúdio de cinema em 1927. De servir chá, levar mensagens e carregar latas de negativos, ele chegou a montador em filmes de Anthony Asquith (como Pigmalião, 1938) e Michael Powell (como Paralelo 49, 1941). Em 1942, obteve a primeira chance na direção, dividindo a função com Noel Coward em Nosso Barco, Nossa Alma.

Seguiram-se três adaptações de peças de Coward - a principal delas é Desencanto (1945), uma das grandes histórias de amor infeliz do cinema. De Coward, David Lean passou para as adaptações de Charles Dickens: Grandes Esperanças (1946) e Oliver Twist (1948) sedimentaram sua reputação como cineasta.

A fase épica começa com A Ponte do Rio Kwai, estrelado por seu ator-assinatura, Alec Guinness. Com locações no Ceilão (hoje, Sri Lanka), o filme reproduziu um episódio da II Guerra Mundial e ganhou sete Oscars - incluindo filme e direção. O filme seguinte foi o monumental Lawrence da Arábia. Foi uma aventura:Lean levou toda a sua equipe para os desertos do Marrocos e da Jordânia e as filmagens duraram 20 meses. “Quando aparecem homens em camelos no horizonte, somos nós mesmos ali”, disse o ator Omar Sharif num extra da edição em DVD, mostrando o perfeccionismo do diretor.

O filme foi cortado depois da estréia e cortado mais ainda no relançamento de 1971. Em 1988, o próprio Lean participou da restauração à metragem original, para um novo lançamento. Foi em Lawrence da Arábia que o diretor começou a parceria com o roteirista Robert Bolt, o fotógrafo Freddie Young e o músico Maurice Jarre. Novamente, foram sete Oscars, incluindo filme e direção. Peter O’Toole não ganhou, mas tem uma das maiores atuações da história.

A música de Lawrence da Arábia é tão famosa quanto a de Doutor Jivago - com o “Tema de Lara”. O filme de 1965 mostra um triângulo amoroso (entre Omar Sharif, Julie Christie e Geraldine Chaplin) que se passa na Rússia da época da revolução comunista e, irritando esquerdistas, fez grande sucesso. Os desertos agora são os gelados, com locações na Finlândia.

Cinco anos depois, veio A Filha de Ryan, que não teve a mesma repercussão.  O time, com Bolt, Young e Jarre era o mesmo, mas o belo filme não foi sucesso nem de público, nem de crítica. Lean só lançar um novo filme em 1984, com Passagem para a Índia. Ele escreveu o roteiro e também montou o filme - e as reações foram bem diferentes - com crítica e público.

Lean morreu de câncer em 1991, quando estava perto de começar as filmagens de Nostromo, uma adaptação de Joseph Conrad. Seu refinamento faz falta hoje - tanto que, quando o British Film Institute elegeu os cem maiores filmes britânicos de todos os tempos, entre os cinco primeiros estavam três filmes de David Lean.


Lawrence da Arábia, 1962


Desencanto, 1945


Doutor Jivago, 1965

PROTESTO INFANTIL

O general-presidente João Baptista Figueiredo estava em Belo Horizonte, num belo dia de 1979, para o lançamento do primeiro carro a álcool do país. As escolas da cidade levaram uma fila de crianças para cumprimentá-lo. E não é que a primeira menininha da fila se recusou terminantemente a apertar a mão do cabeça da vez da ditadura militar? Mesmo com repórteres e professores insistindo, ela cruzou os braços e ficou firme.

Este flagrante incrível foi registrado pelo repórter fotógrafico Guinaldo Nicolaevsky, então trabalhando em O Globo - que não publicou a foto. Ele teve que mandar para Veja, que teve grande destaque. A história completa está no site da BR Press, que está fazendo uma campanha para saber quem é a garota da foto.

MUSAS DE 2007

12 - Fernanda Machado (Tropa de Elite)

A melhor novidade da novela Paraíso Tropical também foi a única coisa que prestou em Inesquecível - ela era a mocinha do filme-dentro-do-filme, em cenas bem mais interessantes que o resto daquilo. Em Tropa de Elite, ela foi o refresco para os olhos diante da brutalidade da guerra entre Bope e traficantes. Para ver também: a minissérie Queridos Amigos.

4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS

 

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias não é um filme de floreios. É direto, até mesmo cru ao tratar do pior dia da vida de duas amigas: aquele em que uma delas fará um aborto. Um tema espinhoso, que poderia descambar para um melodrama daqueles - tentação que, ao narrar o filme em tom quase documental, o diretor-roteirista romeno Cristian Mungiu conseguiu habilmente driblar.

No início, as amigas tomam café enquanto se preparam para um compromisso que não sabemos qual é. Trata-se do encontro marcado com o homem que vai executar o aborto. O filme é inteligente ao centrar o foco não em Gabita (Laura Vasiliu), a garota grávida, mas em Otilia (Anamaria Marinca), a amiga que a ajuda. Ela é que tem que coordenar tudo, pois o nervosismo de Gabita não ajuda - e muitas vezes atrapalha.

Como se um aborto em si não fosse uma situação com potencial traumático suficiente, estamos na Romênia dos anos 1980, na ditadura comunista de Nicolau Ceaucescu - onde tudo, de cigarros ao próprio aborto, é conseguido através do mercado negro. Aborto, especificamente, é um crime mais do que sério - o perigo de serem descobertas aumenta ainda mais a tensão do dia. Além disso, outras complicações - pequenas e grandes - surgem no decorrer do dia, e acompanhamos tudo como testemunhas silenciosas - cúmplices, até.

O diretor consegue isso sem usar trilha sonora ou exagerar na interpretação. Um dos melhores planos é aquele em que Otilia está na casa do namorado, agüentando uma conversa qualquer, a cada segundo mais terrível, pois a mente está em outro local. O filme a acompanha em sua via crucis, mas acerta a mão ao não julgar as garotas, nem pra um lado nem para o outro. Nem por isso, deixa de ser forte.

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. 4 Lunim 3 Saptamâni si 2 Zile. Romênia, 2007. ****

SEÇÃO DE CARTAS

Philio, quando o filme é ruim, pelo menos rende um texto engraçado, hehehe.

Junior, eu até ia dizer quee ssa Dorothy é bem diferente daquela de Lost Girls, mas me contive, hehe.

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