CINEMA/ 'OS INDOMÁVEIS'

Outro dia estava vendo Silverado com amigos e discutimos sobre a razão de não serem feitos mais faroestes hoje. Ou, pelo menos, de só serem feitos muito de vez em quando. Interessante também é pensar as conseqüências disso. O western hoje virou uma coisa meio "cinema de arte". Não é mais uma mera aventura, como em seus tempos dourados. Quando surge um, é sempre com uma aura meio "importante", que afugenta uma parcela do que deveria ser seu público-alvo: quem procura um bom filme de aventura. Ou: trata-se de uma diversão adulta demais para um meio dominado cada vez por adolescentes - muito interessados em efeitos visuais e pouco em história (nas duas acepções).

Enfim, isso não diminui o mérito de Os Indomáveis, o belo filme que estreou nesta sexta (apenas nas salas do Tambiá). O título brasileiro boboca não faz jus ao filme de James Mangold (de Johnny & June) e parece querer tirar uma casquinha do clássico moderno Os Imperdoáveis. O título original (3:10 to Yuma) refere-se ao horário e destino de um trem fundamental para a história: é nele que deve embarcar um bandido (Russell Crowe) preso e escoltado até a cidade em que está a estação por um pequeno grupo - entre eles, um fazendeiro (Christian Bale) que tem dívidas e precisa muito da grana da recompensa.

3:10 to Yuma é um conto de Elmore Leonard já levado ao cinema em 1957, no até então meio esquecido Galante e Sanguinário. Confesso que não vi o original, mas Os Indomáveis está à altura de qualquer bom faroeste já feito, com um vibrante embate psicológico entre seus dois personagens principais ao longo de toda a trama. Bale interpreta um tipo incorruptível e determinado; Crowe responde com um bandido que, de tão simpático, pode fazer esquecer de como é perigoso. Ambos duelam com e sem armas até o excelente clímax que faz pensar: como as pessoas podem nem mesmo dar uma chance a um filme tão bom?

Faroeste tem cor, cheiro e gosto de cinema. Bem mais do que a maioria do cinema que é feito e enlatado hoje. Certamente me verão na platéia dele de novo esta semana.

O MVC APOSTA
Um agradecimento ao Fábio e à Erika pela visita! E deixo vocês com o trailer de Mamma Mia!, o musical que estréia no país no meio do ano - e o MVC aposta!
CINEMA/ 'RAMBO IV'

Eu fico impressionado como há quem realmente pense que Rambo IV seja um filme de algum valor - qualquer um -, como eu li um dia desses no Omelete. Que os fãs de cinema trash, como meu amigo André Cananéa digam (quero crer) meio de brincadeira que Rambo é um "clássico", eu até entendo. O primeiro filme, vá lá, tem algum crédito pelo ritmo e por uma certa visão do desajuste de uma parcela dos veteranos do Vietnã que estavam de volta à América. A partir do segundo, a coisa toda não passou de uma gigantesca patacoada da era Reagan - um símbolo da brutalidade e mediocridade reinantes naquela esfera.

Vinte anos se passaram desde que Stallone expulsou sozinho os soviéticos do Afeganistão em Rambo III (1988). Agora, o ex-soldado vive na Tailândia, caçando cobras para um show bizarro local. É procurado por um grupo de missionários que querem atuar humanitariamente na guerra civil da Birmânia - querem que ele os leve até lá em seu barco. Daí, os religiosos cheios de boas intenções são capturados pelo assassino exército local e John Rambo se junta a mercenários enviados para resgatá-los.

Isso depois de uma crise de consciência! Sylvester Stallone pela primeira vez dirige um dos personagens de maior sucesso em que pôs a pele (o outro, naturalmente, é o boxeador Rocky Balboa) e mais uma vez co-escreve o roteiro, como nos três anteriores. Agora, tenta dar uma dimensão psicológica a Rambo, no que fracassa tristemente. A máquina de matar gente é mostrada num exercício de reflexão em que descobre que é justamente isso: uma máquina de matar gente, partindo, então, para fazer o que faz melhor. Levar quatro filmes para descobrir algo tão óbvio não poderia ser mais Rambo.

A matança é farta para os espectadores desejosos de sangue. Cabeças são decepadas, homens são mortos à queima-roupa por metralhadoras, o índice (segundo uma revista) é de dois corpos por minuto - e este não é o currículo dos vilões, mas do herói. Aliás, quem disse mesmo que Rambo é herói? No primeiro filme, ele apenas salva a si mesmo, enquanto no segundo e terceiro não faz mais do que fincar a bandeira da política Reagan em outros territórios.

Stallone tenta dar essa aura a Rambo neste quarto filme - para isso, diz que didaticamente procurou saber qual a região do mundo em que os direitos humanos eram mais violados. Essa busca de tornar Rambo IV algo com "mensagem" não passa de grande bobagem. O filme, no final, parece completamente sem razão de ser - mesmo dentro do contexto da série.

Quem procura apenas uma carnificina, sem uma história e uma direção minimamente razoáveis (as cenas de ação não tem nada de mais e não há nem mesmo um vilão com alguma personalidade), Rambo IV está aí pra isso. Mas como diretor e roteirista, Stallone não conseguiu um décimo da qualidade de Rocky Balboa, que redimiu três bobagens anteriores da sua série e a encerrou (esperamos) com chave de ouro. Devia ter parado por aí.

HAIRSPRAY - EM BUSCA DA FAMA

Hairspray – Em Busca da Fama. Hairspray. Inglaterra/ Estados Unidos, 2007.  ****½  Direção: Adam Shankman. Elenco: Nikki Blonsky, John Travolta, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Queen Latifah, Zac Efron, Amanda Bynes, Elijah Kelley, James Mardsen, Brittany Snow, Taylor Parks, Jerry Stiller, John Waters, Ricki Lake. Nos anos 1960, gordinha sonha em entrar para o elenco de um programa de dança na TV e ao fazer os testes toma contato com o precoceito racial existente em sua cidade. Ótimo musical adaptado do sucesso da Broadway de Mark O’Donnell e Thomas Meehan que, por sua vez, é baseado no filme escrito e dirigido por John Waters, de 1988. De altíssimo astral, já conquista pelo excelente leque de canções e o elenco carismático, onde Travolta faz a mãe da estreante Nikki Blonsky (no palco e no primeiro filme homens também interpretavam o papel). Há momentos muito divertidos em canções como “Run and tel that”, “Without love”, “Big, blonde and beautiful”, “(You’re) Timeless to me” (na qual Walken e Travolta dançam juntos) e “You can’t stop the beat” (o espetacular final). O próprio Adam Shankman assina as coreografias. Refilmagem de Hairspray – E Éramos Todos Jovens (1988).

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