PICARETIQUETA URBANA, com Gloria Kanil

De Nelson Litário, de Passo Fundo:
- Dona Gloria Kanil, quando um cara bater minha carteira na rua, eu devo sair com ele ou dou-lhe um tapa por ele ter passado a mão na minha bunda sem pedir licença.?

Caro Nelson, 
É uma deselegância uma pessoa passar a mão na bunda da outra sem antes convidar para um café, um cinema ou um passeio no Tivoli Park. Primeiro, ela deve pagar pelo menos um Chicabon; afinal, depois ela vai reaver o dinheiro mesmo batendo a sua carteira... Aí é o relacionamento de vocês, entre ladrão e bandido, pode ficar mais íntimo. Vocês podem marcar encontros no centro e fazer joguinhos eróticos: você finge estar distraído e ele chega por trás batendo a sua carteira. Mas sem constranger os outros, hein? Que isso não é nada chique!

VENTOS DA LIBERDADE

Ventos da Liberdade. The Wind that Shakes the Barley/ Il Vento che Accarezza l’Erba/ El Viento que Agita la Cebada/ Le Vent se Lève. Irlanda/ Inglaterra/ Alemanha/ Itália/ Espanha/ França, 2006.  ****  Direção: Ken Loach. Elenco: Cillian Murphy, Padraic Delaney, Liam Cunningham, Orla Fitzgerald, Mary O’Riordan. Dois irmãos entram para a luta armada pela independência irlandesa contra os ingleses, mas ficarão de lados opostos quando um acordo for anunciado. O sempre político Ken Loach realiza um belo filme, embora bastante maniqueísta. Murphy (vilão em Batman Begins, 2005) tem outra ótima interpretação. Cannes 1 prêmio: Palma de Ouro.

MAGALI EN ESPAÑA

Atenção, pessoas com tanta saudade quanto eu: as aventuras espanholas da Magali já podem ser conferidas foto a foto no Flickr dela recém-aberto. Cliquem no link e comecem o passeio pela Espanha!Arriba! Arriba!

JEJUM DE AMOR

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Jejum de Amor.
His Girl Friday. Estados Unidos, 1940. Direção: Howard Hawks. Elenco: Cary Grant, Rosalind Russell, Ralph Bellamy, Gene Lockhart, Helen Mack, Porter Hall, John Qualen. Quando sua melhor repórter e ex-esposa comunica que irá casar-se e abandonar a profissão, editor de jornal faz de tudo para que ela cubra uma última matéria: o enforcamento de um homem acusado de matar um policial. A peça original, de Ben Hecht e Charles MacArthur (da qual este filme é a segunda versão), tinha dois homens nos papeís principais, mas o diretor Howard Hawks e o roteirista Charles Lederer mudaram o sexo do repórter, incluiu o elemento romântico e o resultado não poderia ser melhor. Um excelente exemplar das comédias malucas do período, com diálogos metralhados (é um dos primeiros filmes – se não o primeiro – a ter os personagens falando os diálogos uns por cima dos outros, para um efeito mais realista) e Cary Grant e Rosalind Russell num brilhante duelo de interpretações. Outras versões: A Última Hora (1931); A Primeira Página (1974), de Billy Wilder; Troca de Maridos (1988), com Kathleen Turner. Também conhecido como: Esta Garota É Minha.
 

MORTE NO FUNERAL

Morte no Funeral. Death at a Funeral/ Sterben für Anfänger. Inglaterra/ Alemanha/ Holanda/ Estados Unidos, 2007.  ****  Direção: Frank Oz. Elenco: Matthew Macfayden, Keeley Hawes, Rupert Graves, Daisy Donovan, Andy Nyman, Alan Tudyk, Kris Marshall, Ewen Bremner. Família inglesa se reúne para o funeral do patriarca, mas embora um dos filhos faça de tudo para que a cerimônia transcorra tranqüila, as confusões se sucedem, incluindo brigas e segredos revelados. O americano Oz (de filmes como Os Safados, 1988) conseguiu mimetizar uma narrativa muito britãnica, em que os constrangimentos nunca perdem a chance de demolir as regras sociais. Como o cenário é um velório, tudo por acontecer – com destaque para o convidado que ingere drogas por engano e perde totalmente o controle e o anão que surge com um fato arrasador. O elenco afinado garante muitas risadas.

CRÍTICA/ 'A BÚSSOLA DE OURO'

Épico desorientado

No mundo de A Bússola de Ouro (The Golden Compass, Estados Unidos, 2005) - que é o nosso, mas com magia, tecnologia avançada de visual retrô e uns lugares a mais - as pessoas têm a alma visível na forma de um animal que está sempre ao lado - e é chamado deamon. Feiticeiras, bichos falantes e crianças tentando cumprir uma missão são elementos mais comuns em contos de fadas, mas isso está claro que o filme de Chris Weitz não quer ser. Ele quer mesmo ser é O Senhor dos Anéis.

A New Line, mesmo estúdio que levou ao cinema as adaptações dos livros de J.R.R. Tolkien, ambicionava conquistar o mesmo público com esta versão do primeiro volume da série Fronteiras do Universo, escrita por Philip Pullman. Não funcionou completamente: nem o público correspondeu, nem a direção de Weitz foi capaz de dominar o material como a de Peter Jackson fez com Tolkien.

Visualmente, o filme impressiona. Os animais digitais são convincentes e o cenário enche os olhos. Mas a história não chega a empolgar pra valer, embora a jovem Dakota Blue Richards, 13 anos, dê conta do recado de segurar o filme. Se dá melhor do que Nicole Kidman, cuja atuação não chega a dizer muito.

As inúmeras explicações que são atiradas no espectador sobre tudo o que há nesse mundo paralelo e que não existe no nosso são feitas sem a menor inspiração. Isso trava a narrativa, que converge para uma grande batalha que é bem encenada, mas também não traz nada que já não tenha sido visto antes.

Talvez a ousadia do livro - que o filme fez questão de descartar, para evitar polêmicas com a Igreja - tenha feito falta, afinal. Sobrou desorientação na vontade de empurrar encantamento goela abaixo do espectador: o filme tem elementos demais e nenhum se desenvolve plenamente. Mas, pelo menos, consegue não ser irritante, e ainda vale o ingresso.

OS MELHORES FILMES DE 2007

SPOC! Êêêêêê!! Feliz ano novo pra todo mundo! Principalmente, aos meus quatro ou cinco leitores que ainda têm paciência para vir aqui!

E vamos começar o ano... falando do ano passado! Mas do que melhor aconteceu no ano passado: minha já tradicional (para mim) lista de melhores filmes do ano, publicada na edição de domingo do Jornal da Paraíba (quem quiser conferir como a página ficou bonita, é só clicar no link).

Pra começar, foram 165 filmes novos no cinema em 2007, provavelmente o maior número em todos os tempos (média de 3,17 estréias por semana). Em 2006, foram 161; em 2005, foram 129; e em 2004, foram 140. Dos 165, 28 são brasileiros (contando O Passado, de Hector Babenco, co-produção com a Argentina). Pode parecer pouco, mas a proporção subiu de 11,8% para 16,96% - foram 15 nacionais em 2005 e 19 em 2006. Além destes, só 15 filmes em língua não inglesa passaram por aqui. E 14 dos filmes que estrearam por aqui foram feitos em animação (incluindo aí A Lenda de Beowulf e ficando de fora Encantada, que é mais com atores).

Vamos aos dez melhores do ano, então:


1 - Ratatouille
A Pixar se superou com a história do ratinho francês que deseja ser um cozinheiro. Além da técnica estar anos-luz à frente do concorrentes, a direção de Brad Bird é perfeita na comédia, no drama e nas cenas de ação, com a “câmera” correndo por entre paredes e pelo chão do restaurante. Momentos tocantes e um show de personagens bem construídos num filme redondíssimo.


2 - Cartas de Iwo Jima

Clint Eastwood fez dois filmes quase simultâneos sobre a Segunda Guerra e sua “metade japonesa” é que conquistou a todos. A história de um grupo de soldados à espera de uma batalha que sabem não poder vencer é mostrada com melancolia e dignidade pelo diretor, numa fase de esplendor.


3 - A Rainha
Helen Mirren foi unanimidade absoluta por sua interpretação de uma Elizabeth II perdendo a conexão com seus súditos logo após a morte de Diana, em 1997. Mas o filme de Stephen Frears surpreende pela fluência e por, com discrição britânica, produzir grandes cenas - como o temido encontro da soberana britânica e seu povo, nos portões do palácio.


4 - O Ultimato Bourne
Em última instância, o filme de Paul Greengrass merece todo o reconhecimento por provar que um filme de ação não precisa abdicar da inteligência para ser sensacional. O desfecho da trilogia Bourne amadureceu a série e criou grandes momentos, como a perseguição pelas vielas de uma cidade marroquina.


5 - Piaf - Um Hino ao Amor
“Arrebatador” é uma palavra que tem sido muto usada para definir o filme de Olivier Dahan. A história impressionante de Edith Piaf é impressa em cores épícas e manipulada na ordem de seus acontecimentos para causar ainda mais impacto no espectador. E há, claro, a extraordinária Marion Cotillard que é, este ano, a unanimidade que Helen Mirren foi em 2006.


6 - Diamante de Sangue
O filme de Edward Zwick entra na lista por razões parecidas pelas quais O Jardineiro Fiel entrou em 2005: é ao mesmo tempo excelente como filme de ação, drama e coimo denúncia social - no caso, de como o tráfico de diamantes contribui para a guerra civil na África. Grandes interpretações de Leonardo DiCaprio, Djimon Hounsou e Jennifer Connelly.


7 - Saneamento Básico, o Filme

Jorge Furtado brincou com o tema dos editais públicos para discutir, no fim das contas, a importância que produzir cultura tem para nossas vidas. Mas sem o menor didatismo - o que ele reservou para os personagens que vão descobrindo o amor pelo cinema enquanto aprendem a fazê-lo. Uma bela comédia, com um elenco afinadíssimo.


8 - Não por Acaso
Philippe Barcinski encontrou saídas originais e simples para mostrar os solavancos emocionais na vida de três pessoas obcecadas por controle - e que, por causa de dois segundos - vêem tudo sair dos eixos. Com uma habilidade narrativa notável, ele rege um elenco perfeito, no qual Leonardo Medeiros dá um show.


9- Filhos da Esperança
Os planos-seqüência orquestrados pelo mexicano Alfonso Cuarón são desconcertantes e dão requinte à ficção científica que imagina o que aconteceria se a humanidade ficasse estéril e apenas uma mulher aparecesse grávida - e se tornasse a única esperança para a perpetuação da espécie. Inteligente e bem conduzido é apoiado pela vigorosa atuação de Clive Owen.


10 - Zodíaco
Não é qualquer um que consegue fazer um grande filme sobre um caso que não se resolve. David Fincher envolve o espectador na investigação de dois policiais, um repórter e um cartunista através dos anos, desvendando pistas e enigmas deixados pelo assassino serial Zodíaco. O filme não desencantou aqueles que esperam mais que respostas fáceis no final. 

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