CRÍTICA/ 'PIRATAS DO CARIBE - NO FIM DO MUNDO'

 

Afogado em excessos

 

Em determinado momento de Piratas do Caribe - No Fim do Mundo (Pirates of the Caribbean - At the World’s End, Estados Unidos, 2007), Jack Sparrow (Johnny Depp) se exaspera com o excesso de regras sucessivas numa reunião de piratas: “Você está inventando!”.  Em vários momentos dá vontade de dizer isso para o próprio filme, tantos são os elementos fundamentais da trama baseados em fatos que só aparecem agora - mas que, de repente, todos os personagens conhecem.

 

O primeiro filme era uma mistura de aventura e comédia bem equilibrada, com  um notável ator se sobressaindo: Johnny Depp e seu capitão Jack Sparrow. Para variar, o sucesso provocou um inchaço de efeitos visuais no segundo - o produtor Jerry Bruckheimer e o diretor Gore Verbinski já são chegados nisso.

 

Tanto é que Depp passava o filme inteiro lutando contra os efeitos visuais para sua atuação ter o mesmo peso. Em No Fim do Mundo, coitado, ele nem sequer tem chance. Sparrow tem poucos bons momentos, num filme em que o exagero é a regra. De uma hora para outra, tiram da manga até a deusa Calypso (inspirada muito de leve na mitologia grega) sobre a qual parte da história passa a girar em torno com uma importância inacreditável, para quem nunca tinha sido nem citada antes.

 

As reviravoltas são tantas que o filme torna-se confuso e longo demais. Assumindo um ar sombrio, não consegue nem mesmo ser engraçado - e, quando tenta, beira o ridículo (como o pedido de casamento no meio de uma batalha ou a multiplicação de Jack Sparrows).

 

Verbinski consegue a proeza de desperdiçar a aparição de Keith Richards (Depp assumiu que compôs seu personagem inspirado no rolling stone), sem tempo ou espaço para mostrar a que veio. Só não é perda total por alguns momentos em que Johnny Depp consegue botar a cabeça fora d’água.

ESTRÉIAS DA SEXTA

- O Amor Pode Dar Certo - com Dermot Mulroney e Amanda Peet, ele é um sujeito que sofre de câncer e descobre com ela que ainda vale a pena viver. Aquela coisa. No Box.

Batismo de Sangue - Caio Blat e Daniel de Oliveira são frades envolvidos na luta contra o regime militar. Consta que é forte. No MAG.

- Um Crime de Mestre - Anthony Hopkins inventa um plano perfeito para matar a esposa. Depois, um procurador tenta provar a culpa dele. Dizem que Hopkins copia ele mesmo do Silêncio dos Inocentes. No Box.

- A Pele - Nicole Kidman no papel da fotógrafa Diane Arbus, antes da fama. Nicole dificilmente não vale a pena. No MAG.

Premonições - Sandra Bullock recebe a notícia de que seu marido morreu. No dia seguinte, tá lá ele tomando café tranqüilo em casa. Ela começa a achar que está perdendo o juízo. Acho que já vi esse filme, mas... No Box.

E ainda tem pré-estréias de Shrek Terceiro e Totalmente Apaixonados na quinta que vem
PIRATAS DO CARIBE - NO FIM DO MUNDO
 

Piratas do Caribe – No Fim do Mundo. Pirates of the Caribbean – At the World's End. Estados Unidos, 2007. **½ Direção: Gore Verbinski. Elenco: Johnny Depp, Geoffrey Rush, Orlando Bloom, Keira Knightley, Tom Hollander, Jack Davenport, Bill Nighy, Chow Yun-Fat, Jonathan Pryce, Stellan Skarsgard, Naomie Harris, Keith Richards. Os amigos de um excêntrico pirata partem em busca de um mapa que os levarão ao fim do mundo para resgatá-lo da morte e levá-lo a uma reunião de piratas que deve resolver como enfrentar um navio-fantasma que está dizimando-os. Terceiro e confuso exemplar da série. Com personagens demais, o roteiro (de Ted Elliott e Terry Rossio) se perde em reviravoltas com pretextos fragilíssimos. Mais sombrio que os anteriores, há pouco humor – e quando há espaço, as piadas são sofríveis. Quem mais perde com isso é Johnny Depp – seu Jack Sparrow está perdido no filme, sem possibilidade de se destacar, como nos anteriores. O exagero toma conta e até a participação de Keith Richards (em que Depp disse que se inspirou para compor seu personagem) passa praticamente despercebida. A cena-símbolo é a luta de espadas entre dois personagens no mastro de um navio, na chuva, em um redemoinho gigante e no meio de um tiroteio entre navios – e eles nem se desequilibram! Continuação de Piratas do Caribe – O Baú da Morte (2006).

CRÍTICA-HQ/ 'LOST GIRLS - LIVRO 1: MENINAS CRESCIDAS'

 

Polêmica de classe

 

Dificilmente alguém terá coragem de dar menos de cinco estrelas para Lost Girls - Livro 1: Meninas Crescidas (Devir, 112 páginas). A obra escrita por Alan Moore e ilustrada por Melinda Gebbie possui narrativa primorosa, muita ousadia e, por fim, é surpreendente.

 

Nas declarações sobre a obra, Moore disse que seu objetivo era elevar o status da pornografia na arte contemporânea. Outros artistas dos quadrinhos - notadamente Guido Crepax e Milo Manara - já conseguiram algo em torno disso, unindo o erotismo à tramas com conteúdo social e político ou onírico. Mas nada tão radical quanto Moore.

 

O autor britânico já havia jogado com personagens literários do século 19 nos dois volumes de A Liga Extraordinária. Agora, mexe com as personagens infantis do período. Lost Girls se passa às vésperas da I Guerra Mundial, num hotel europeu, onde se encontram, adultas, Alice (de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, 1865, de Lewis Carrol), Dorothy (de O Mágico de Oz, 1900, de L. Frank Baum) e Wendy (de Peter Pan, 1904, de J.M. Barrie).

 

Moore transforma os elementos de fantasia das obras em metáforas para o prazer sexual, confessados pelas personagens umas para as outras.  Por exemplo: a jovem Dorothy descobre a masturbação e tem seu primeiro orgasmo durante o ciclone que, no livro original, a transporta ao país de Oz. Enquanto isso, elas se entregam a novas - e chocantes - experiências, com uma dose de elegância desconcertante.

 

A narrativa varia a cada capítulo - a abertura, toda vista através de um espelho, é absolutamente genial - e a arte de Melinda também varia, predominando um estilo que lembra Toulouse-Lautrec e foge do usual nas HQs. Ainda faltam dois números, mas Lost Girls já conseguiu ser uma obra pornográfica digna de um local de honra em qualquer estante.

NASCIDA ONTEM
 

Nascida Ontem. Born Yesterday. Estados Unidos, 1950. **** Direção: George Cukor. Elenco: Judy Holliday, Broderick Crawford, William Holden, Howard St. John, Frank Otto. Milionário brutamontes tenta conseguir favores políticos em Washington, e, para ajudar no lado social das negociações, contrata um jornalista para ensinar etiqueta à sua namorada – mas ela acaba aprendendo bem mais do que isso. Judy Holliday já havia interpretado na Broadway a peça de Garson Kanin – mas só ganhou o papel no filme depois que Rita Hayworth desistiu e um punhado de outras atrizes foram testadas. A despeito disso, ela cria uma das mais memoráveis louras burras do cinema (inclusive, inspirando visivelmente a Lina Lamont de Cantando na Chuva, 1952). Tanto é que, zebra no Oscar, ela ganhou o prêmio de melhor atriz superando Bette Davis e Anne Baxter (ambas por A Malvada, 1950) e Gloria Swanson (por Crepúsculo dos Deuses, 1950). Além disso, curiosamente concorreu ao Globo de Ouro como atriz de comédia e de drama pelo mesmo papel. Cukor fez o elenco ensaiar a peça como no teatro e fazer seis apresentações para uma platéia antes de filmar. Deu certo: a afinação entre o trio principal é um charme a mais a esta comédia-romântica. Oscar 5 indicações, 1 prêmio: Atriz (Judy Holliday); as outras indicações: Filme, Direção (George Cukor), Roteiro e Figurino em preto-e-branco. Globo de Ouro 4 indicações, 1 prêmio: Atriz/ comédia ou musical (Judy Holliday); as outras indicações: Filme/ drama, Direção (George Cukor) e Atriz/ drama (Judy Holliday). Refilmado como Nascida Ontem (1993), com Melanie Griffith.

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