CRÍTICA/ ‘OS INFILTRADOS’

Balançando nos dois lados da gangorra

Renato Félix

O cinema de ação de Hong Kong, geralmente afeito a tranqueiras virtuosísticas, tem também sido berço de boas idéias, principalmente por ousar em roteiros mirabolantes. Um desses filmes, Conflitos Internos (2002), serviu de base para Os Infiltrados (The Departed, Estados Unidos, 2006), com a trama de dois agentes duplos – um policial entre os badidos e um bandido entre os policiais – que têm a missão de descobrir um ao outro. Só que com o verniz de Martin Scorsese.

O diretor, que afirmou não ter visto o original chinês, conseguiu fazer com que a história pareça ter sido americana de berço. A ação se passa em Boston e a polícia combate a máfia irlandesa. Logo no começo, o filme assume uma narrativa paralela: conta a história de Colin Sullivan (Matt Damon), um jovem acolhido pelo gângster Frank Costello (Jack Nicholson) e infiltrado por ele na academia de polícia, e Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), um novato que é convencido pelo chefe de polícia a forjar sua expulsão da academia e sua prisão para ganhar a confi ança do mafioso e ser integrado ao bando.

Scorsese sempre preferiu mostrar apenas a intimidade dos bandidos, mas agora balança entre os dois lados da gangorra. Enquanto Sullivan sobe na carreira, mesmo sabotando a lei quando esta se aproxima demais de Costello, Costigan vive uma angustiante solidão, sem identidade e sem poder contar com praticamente ninguém.

Alguém que estava assistindo a Os Infiltrados (The Prestige, Estados Unidos, 2006) comigo disse em certo momento do fi lme: “Parece cena de um filme do Quentin Tarantino!” Eu, lógico, corrigi: “Tarantino é que se parece com Scorsese”. Está claro que no turbilhão de referências do diretor de Pulp Fiction - Tempo de Violência (1994) uma das principais é o cinema virtuoso e destemido do diretor de Os Bons Companheiros (1990).

Mas como Tarantino faz uma reciclagem de várias coisas, acaba se rendendo a um certo tom de autoparódia que não há nos filmes de Scorsese. Os Infiltrados, por exemplo, é sério, mesmo quando arranca risos pela interpretação de Jack Nicholson (talvez o melhor gângster do cinema desde o Al Capone de Robert De Niro, em Os Intocáveis, 1987).

Aliás, todo o elenco está muito bem. Leonardo DiCaprio, sempre competente, Matt Damon sutil e correto, Nicholson na superatuação que sempre convém a ele e sempre dá certo, Martin Sheen e Alec Baldwin aparecendo bem em papéis menores e uma ótima Vera Farmiga na única personagem feminina de destaque – uma psicanalista que trabalha para a polícia e se torna um elo entre os dois infiltrados (o ponto mais inverossímil da trama, mas tudo bem). E quem rouba algumas cenas é Mark Walhberg, como um sargento mais antisocial possível.

É outro ponto forte do filme o fato de manter seus personagens no limite, mas evitar qualquer sentimentalismo. A trama tem uma série de implicações aproximando e afastando seus protagonistas até o inevitável encontro e a sucessão de reviravoltas. O filme não facilita muito para o espectador, e o final só vai fazer completo sentido se você prestar atenção e refletir um pouco depois, ligando as pontas aparentemente soltas, para fechar finalmente o ciclo.

Os Infiltrados. The Departed. Estados Unidos, 2006.  ****  Direção: Martin Scorsese. Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Alec Baldwin, Mark Wahlberg, Martin Sheen.

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