QUANTAS FRASES DISSE RODRIGO SANTORO?


Rodrigo Santoro, em 300

Me impressiona bastante a perseguição da imprensa a Rodrigo Santoro - no que diz respeito aos trabalhos que o rapaz vem fazendo lá fora. Ele era tratado como mais um “rostinho bonito da TV” até mostrar que tem talento em Bicho de Sete Cabeças (2001) e queimar a língua dos críticos - a minha, entre elas, diga-se.

Mas com isso provado, parece que a nova esperança para malhar o coitado é um possível fracasso de sua carreira internacional. Santoro deu declarações na semana passada dizendo estar cansado de ver a imprensa tupiniquim contando suas falas e tempo de tela a cada aparição. Primeiro foi com As Panteras Detonando (2003), seu primeiro filme no exterior, no qual é um vilão que entra mudo e sai calado.

Mas pode ter sido até melhor, visto que o filme é horroroso. O brasileiro é um capanga surfista e motoqueiro, que aparece apenas para que as moças protagonistas façam “nham!” quando o vêem e disputem com ele um racha de motos. Que tipo de falas Rodrigo Santoro teria mesmo num filme assim?

Na seqüência veio Simplesmente Amor (2003), comédia romântica da Working Title inglesa. Aí, já melhorou: o filme é infinitamente melhor e ele ainda faz par com a ótima Laura Linney. Mas a imprensa também se divertiu apontando que o ator tem poucas falas no filme. Parece que não atentaram para o grande número de personagens do filme e que ele é o coadjuvante de uma das ramificações da história (onde a protagonista é Laura Linney). Mesmo assim, foi um avanço e tanto.

Depois disso, veio o convite para ser Xerxes, o rei da Pérsia, antagonista em 300, baseado na minissérie em quadrinhos 300 de Esparta. O filme, filmado quase todo em fundo verde para posterior adição de cenários virtuais, ainda não foi lançado. Mas ele já estreou na terceira temporada de Lost.

O anúncio de que Rodrigo Santoro estaria no elenco de uma das séries de maior sucesso dos últimos anos gerou o maior rebuliço por aqui. Mas parece que os espíritos-de-porco dão mesmo plantão. Li uma notícia sobre sua primeira aparição - no terceiro episódio da terceira temporada - e a principal informação é de que o ator só aparecia no final do capítulo e dizia meras quatro frases.

Ora, bolas. Ser introduzido na série no final de um episódio é, antes de qualquer coisa, uma deferência - já que é para esses momentos finais que são guardados os momentos de maior impacto - ou não são?

E as tais quatro frases? Será que a criatura que redigiu a matéria (na Folha de S. Paulo) simplesmente não se dá conta de que outros episódios (e frases) virão?

Ontem foi anunciado que Santoro foi confirmado ao lado da espanhola Paz Vega (de Lucía e o Sexo e Espanglês) e de Shakira em Dare to Love Me, onde ele será o mito do tango Carlos Gardel. Desta vez, ele será o protagonista da história. Vamos aguardar o que vão dizer sobre este e sobre 300.

Essa perseguição me lembra outra, a sofrida por Carmen Miranda em sua carreira em Hollywood. Ruy Castro conta no livro Carmen como a cantora e atriz era massacrada pelos críticos brazucas por ser um “estereótipo” - e eles pareciam não ver que todo mundo em Hollywood era um estereótipo, de Clark Gable a Lana Turner.

TORCENDO NA FRENTE DA TELINHA

Renato Félix

Você está na frente da TV e já escolheu para quem torcer na corrida, vibrando a cada volta e a cada curva. É uma cena que pode se passar durante uma prova do campeonato mundial de Fórmula-1 ou, a partir deste mês, durante uma sessão caseira de Grand Prix (1966), filme que acaba de sair em DVD e ainda é um dos mais lembrados quando o assunto é esporte no cinema.

Grand Prix é justamente sobre o mundo da Fórmula-1, mas uma Fórmula-1 que parecia mais romântica e aventureira e era, sobretudo, mais perigosa - sem as dezenas de restrições que viria a ter por causa da segurança dos pilotos. E o filme de John Frankenheimer não poupou esforços em fazer o espectador viver a emoção de uma corrida.

Entre as idéias, acoplou câmeras nos carros, idéia que a TV copiaria muitos anos depois. Mas também mistura cenas reais de corrida com outras encenadas, usa pilotos reais no elenco, captou com precisão o som dos motores, divide a tela e muda o enfoque de uma corrida para a outra. É um marco para os filmes que viriam depois e que também procurariam fazer o espectador de cinema torcer pela vitória.

O Milagre de Berna (2003), por exemplo, mostra a Copa do Mundo de 1954 (que a Alemanha Ocidental venceu sobre a então imbatível Hungria) pelo olhar de um garoto que torce por seu país. Pena que nessa Copa o Brasil se deu bastante mal - só viria a ser campeão pela primeira vez na seguinte, em 1958.

O boxe é um esporte que é melhor no cinema na realidade. As lutas são um prato cheio para os diretores criarem momentos de muita dramaticidade - geralmente de um herói tentando superar um oponente bem mais poderoso e alcançar não só a glória, mas a própria dignidade. Um exemplo recente é A Luta pela Esperança (2004), de Ron Howard, onde o grande momento é exatamente a luta final em que o aposentado boxeador (Russell Crowe) tem sua grande chance de dar a volta por cima.

Da brutalidade do boxe para o símbolo de elegância que é o tênis. O esporte já foi tanto motivo para cena de suspense de Alfred Hitchcock (em Pacto Sinistro, 1951) quanto para uma boa comédia romântica, em Wimbledon - O Jogo da Paixão (2004), onde um casal de atletas se apaixona durante a principal competição de tênis do mundo.

Até o turfe tem seu filme-referência. Assim como as corridas de automóveis de Grand Prix, a velocidade é tudo em Seabiscuit - Alma de Herói (2003). Aqui, no entanto, são dois desacreditados: o jóquei (Tobey Maguire) e o cavalo. Como em A Luta pela Esperança e O Milagre de Berna, a história é real (esta se passa nos anos 1930), mas isso não impede de que o espectador torça como se estivesse em um estádio - e isso é a maior prova de qualidade de qualquer filme que queira traduzir a emoção de um esporte.

GRANDES FILMES/ '...E O VENTO LEVOU'

 

Odisséia de uma personagem maior que a vida

 

Renato Félix

 

Quando eu penso na expressão "maior que a vida", a imagem que mais rápido me vem à mente é a da bela sulista (na verdade, britânica) enfrentando soldados ianques enquanto passa quase todas as quatro horas de duração do filme do qual é protagonista correndo atrás do homem errado - mas com uma determinação e vitalidade tal que faz ser muito difícil torcer contra ela. A mulher é Scarlett O'Hara e o filme, claro, é ...E o Vento Levou (1939).

 

O "na verdade, britânica" diz respeito à atriz que vive a personagem: quase todo mundo sabe como Vivien Leigh foi escolhida aos 45 do segundo tempo para viver Scarlett, quando o filme já tinha começado a ser rodado e uma grande caçada à atriz perfeita mobilizou todas as estrelas de Hollywood na época (e garantiu ainda mais marketing para a produção).

De propósito ou por acaso, Vivien foi a escolhida e deu mais do que conta do recado. Passa da menininha mimada do começo do filme para uma mulher forte e cheia de espírito de liderança no decorrer da trama, que atravessa a Guerra da Secessão nos Estados Unidos.

 

Scarlett corre o filme inteiro atrás do mosca-morta Ashley Wilkes (Leslie Howard), só dando atenção ao cínico (mas de espírito bem mais divertido) Rhett Butler (Clark Gable) quando convia. E Rhett foi insistente: mostra-se disponível para Scarlett logo no comecinho do filme e espera pacientemente por ela, até começar a perder a paciência para essa fixação dela em Ashley.

 

Scarlett é – junto com a Cabiria, de Fellini - a maior personagem feminina do cinema. É mesquinha, egoísta, mimada, interesseira, cara-de-pau, fingida, mas também é vivaz, corajosa, divertida e até um pouco inocente. E sobretudo deslumbrante. Quem não se apaixonaria por ela? O problema é o que ela fará de posse desse sentimento.

 

...E o Vento Levou é o símbolo da era de ouro de Hollywood. Uma produção suntuosa, numa história folhetinesca, mas tudo funcionando que é uma beleza - mesmo que o processo de filmagem tenha sido caótico. É também um símbolo desse período, porque nenhum filme mais do que esse pode apresentar o produtor como um autor - já que David O. Selznick demitiu três diretores e contratou e pôs para fora uma quantidade incontável de roteiristas (os créditos finais - e os Oscars das categorias - ficaram como "direção de Victor Fleming" e "roteiro de Sidney Howard").

 

Não é difícil atravessar as quatro horas do filme, porque ...E o Vento Levou é, acima de tudo, muito divertido. Há cenas cômicas (de propósito) impagáveis, mas o clássico é também uma maravilha do Technicolor e lindo quando romântico. E quando a paciência com o romance acaba, o filme produz o mais notório fora já dado na tela grande: "Desculpe, querida, eu não estou nem aí" - Gable diz algo mais forte, mas traduza você mesmo.

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